Fotografia, Revista 0

Atenção, senhores protestantes

Há 80 anos, Edward McLain foi o primeiro missionário evangélico a aportar no Cariri. Por várias décadas, os batistas sofreram para se manter na região, sendo apedrejados, perseguidos e insultados antes de conquistarem a aceitação dos católicos. Conheça melhor essa história cheia de peripécias, que permanece viva no relato dos pioneiros.

De passagem pela cidade de Icônio, atual Konya, na Turquia, o apóstolo Paulo e sua caravana de missionários entraram em uma sinagoga e se puseram a falar de Jesus Cristo, filho de Deus, que operou milagres e morreu em uma cruz. Era uma verdadeira afronta aos judeus, que descartavam a possibilidade de o Messias ter vindo ao mundo em carne e osso e, pior, já ter ido embora, da maneira mais humilhante possível, e sem eles. Quem deixou o fato registrado foi o discípulo Lucas no livro de Atos. Lá ele conta que Paulo (ex-Saulo, ex-perseguidor e matador de cristãos) recebeu insultos enquanto tentava falar, foi apedrejado junto aos demais pregadores e arrastado para fora da cidade.

Em 29 de agosto de 1940, em Barbalha, os missionários americanos Edward McLain, Elizabeth Mills e o casal George e Bertha Knutson, acompanhados do brasileiro Marcionilo de Carvalho, estavam na casa do barbeiro Luiz Gonzaga dando início a um pequeno culto evangélico para alguns convidados, com as portas abertas, esperando atrair mais gente. Edward, primeiro missionário a aportar no Cariri, escreveu em seu diário: “Enquanto Marcionilo pregava, o padre levou para frente da casa uma multidão. Os ouvintes foram mandados embora. A multidão fazia todo barulho possível. Um católico entrou na casa e destruiu a Bíblia do pregador, fazendo muita confusão”.

Batismo no Rio Salgado

Batismo no Rio Salgado

“Barbalha estava definitivamente fechada para o evangelho”, Edward encerrou a descrição daquele dia. Em anotação de quase dois anos depois, ele conta de outra tentativa de falar aos barbalhenses sobre a doutrina evangélica. Dessa vez, Jim Willson falava em praça pública na companhia de Antônio Lima, quando foram cercados por dezenas de pessoas que “interromperam em zoada ao redor dos pregadores, jogando areia e pedras. Água era despejada de cima das casas sobre eles. A multidão insuflada os seguiu, mas foi dispensada pelo delegado de polícia”.

Outras centenas de casos aconteceram, alguns deles resultando em morte. Dona Mãezinha, uma barbalhense convertida ao protestantismo, escreveu uma carta ao filho recomendando que ele não voltasse à cidade por causa do perigo que a família corria constantemente. Ela encerra dizendo: “Todos os crentes estão sofrendo uma grande perseguição aqui. Glória a Deus!”. Trinta anos depois de Jim Willson abrir a igreja de Missão Velha e George Knutson fundar a do Crato, os batistas conseguiram inaugurar a primeira igreja em Barbalha  em 1971, com 36 membros. Albert Johnson, americano de Ohio, chegou ao Cariri em 1956. Ele e a esposa, Doris Elaine, foram “os primeiros missionários a fixar residência naquela cidade tão idólatra e resistente ao evangelho”, como diz um boletim institucional publicado em 2003, um ano após sua morte.

Placa na entrada de Barbalha: "Atenção, senhores protestantes..."

Placa na entrada de Barbalha: “Atenção, senhores protestantes…”

A LEI DOS CRENTES

“Atenção, senhores protestantes / Barbalha de Santo Antônio já se acha evangelizada”, recita Luiz Gonzaga antes de começar a cantar Festa de Santo Antônio, de autoria de Alcymar Monteiro, caririense de Aurora. Segundo relato de Odalio Cardoso de Alencar no livro Recordações da Comarca, a frase surgiu no começo dos anos 50 em uma noite de confusão na Rua do Fogo, quando uma multidão, conduzida pelo padre, acabou com o culto que acontecia na casa de uma família protestante. O pastor, chamado Peter, foi acusado pelo povo de vir ao Brasil extrair petróleo e fazer lavagem cerebral nos católicos. Naquele mesmo dia, um dentista teria colocado a faixa em um muro alto na entrada de Barbalha, onde ela permanceu por anos, multiplicando-se em cópias espalhadas pelas ruas e indo parar na letra da música de Alcymar, que hoje é um dos hinos da cidade.

“Em português é mais bonito: Janete”, corrige Janet McClanahan, americana do Kansas, ainda mantendo o carregado sotaque ao falar “cultos evangelísticas”. Ela chegou ao Juazeiro em 1961 para ensinar na escola que o Instituto mantinha, como forma de se aproximar dos juazeirenses e evangelizá-los. “Lembro que uma vez nós fomos para Barbalha e o padre disse: ‘fechem as janelas, que eu não quero que a voz do crente entre nas suas casas”, ela lembra.

Primeira Igreja Batista de Juazeiro, nos anos 50

Primeira Igreja Batista de Juazeiro, nos anos 50

“Em todos os lugares do Brasil foi difícil. Em São Paulo e Amazonas há relatos de perseguições, mas nada se compara com o que aconteceu aqui”, diz o pastor Davi Lima, que chegou ao Juazeiro, em 1955, para estudar no Instituto Bíblico Batista, que havia sido inaugurado em 1946, na Rua do Cruzeiro. “Tomaram a Bíblia da minha mão e rasgaram”, ele conta, lembrando de uma das muitas confusões que presenciou em Juazeiro. O Instituto mudou-se para o imenso terreno de propriedade dos missionários, que ia da estação de trem até onde hoje está o Cariri Garden Shopping. Na década de 60, passou a se chamar Seminário Batista do Cariri e transferiu-se para o Crato.

Edward McLain chegou a Juazeiro do Norte em 1936, apenas dois anos depois da morte do Padre Cícero e da passagem do pentecostal inglês Virgílio Smith pelo Crato. Com os ânimos ainda à flor da pele, romeiros e devotos não queriam saber da nova religião que, entre muitas de suas regras, condenava a adoração de imagens e negava os santos católicos. Por seguirem um pastor, os protestantes foram apelidados de “bodes” e alguns chegaram a ter as casas marcadas com uma cruz. Conta-se que os padres franciscanos foram os responsáveis por disseminar a paranoia e por demonizar a religião evangélica. De acordo com muitos relatos, eram eles que recomendavam que as pessoas tampassem os ouvidos para não ouvir o que os missionários diziam. Da mesma forma, aconselhavam que os fiéis trocassem de calçada ao cruzar com um protestante, e que evitassem vender, atender ou servir algum deles.

baptist-bookstore_152659753_o

Jaime Augusto Lima registrou em Que Povo é Esse? a história da Igreja Batista Regular na região. A primeira protestante juazeirense, ele conta, foi Séfora Rocha, seringueira do Amazonas, convertida na Igreja Presbiteriana de Manaus e que voltou ao Cariri depois da morte do marido. Publicado em 1997 e com relatos dos primeiros missionários, o livro conta que “um primo do Padre Cícero aparecera na cidade para vender Bíblias. Pediu permissão ao padre para fazer o trabalho de colportagem [distribuição, panfletagem]. Foi prontamente atendido”.

“Eu acho que o Pe. Cícero teria apaziguado”, Davi pondera, “Conta-se que andou por aqui um pastor de Fortaleza chamado Natanael Cortês e que o Pe. Cícero não esboçou qualquer perseguição contra ele. Ele era um homem tão diplomático e sábio que eu acho que, se tivéssemos chegado com ele ainda vivo, ele não teria permitido essas perseguições”. Sem o Padre para acalmar os católicos, o primeiro culto evangélico só aconteceu em Juazeiro em 28 de fevereiro de 1940, na casa da missionária Elizabeth Mills. Jim Willson deixou escrito em seu diário que um padre foi o responsável por iniciar o tumulto naquele dia.

Família Willson

Família Willson

VÓS QUE SOIS OVELHAS

Depois que chegou ao Juazeiro, Janet McClanahan passou a morar na casa de Bernice Lind, morta em um acidente de avião, no momento em que o pastor e piloto Haroldo Reiner tentou pousar, no local onde hoje fica o Bairro Triângulo. “Dois dos que morreram eram nossos próprios filhos, Sandra e Pedro. Bernice era uma pessoa querida que nos servia”, Haroldo deixou escrito em diário no dia 19 de dezembro de 1962, quase um mês depois do acidente, publicado no livro de memórias Um Voo para a Eternidade. “Agora todos falavam em ‘tragédia’, ‘desastre’. Eu vinha pilotando o avião da Missão por mais de dez anos e havia voado milhares de horas em serviço missionário. Três vidas haviam sido levadas; duas delas de minha própria carne e sangue”.

Harold Reiner e família

Harold Reiner e família

Como o próprio Haroldo percebeu, toda a cidade lamentou o acidente e se compadeceu da família. A partir de então, a cruzada foi chegando ao fim. Jaime Augusto acrescenta três motivos: a influência que os missionários conseguiram alcançar na alta sociedade caririense; o reconhecimento que eles conquistaram da população, com o trabalho voluntário nas escolas públicas e o serviço da Escola Primária Batista (atual Colégio Batista); e o cessar-fogo do Concílio Vaticano II, que passou a chamar os protestantes de “irmãos separados”. O médico Mozart de Alencar (prefeito de 1973 a 1975) é mencionado em vários relatos como um dos que os acolheu, melhorando a imagem dos americanos entre os juazeirenses.

Oitenta anos depois da chegada do primeiro batista no Cariri, eles estão presentes em várias igrejas na região do Crajubar – mas ainda são poucos, se comparados à infinidade de denominações que existem. Isso porque os batistas regulares são conhecidos por prezar pela qualidade das ovelhas em vez de partir para o evangelismo de corpo-a-corpo, como fazem os neopentecostais. Outra fama que carregam é a de não se misturar com os demais evangélicos. Entre os batistas da Convenção, a vertente mais liberal da doutrina, na qual os fiéis são dispensados da roupa formal e têm cultos mais agitados, conta-se uma piada que traduz, com muito bom humor, as diferenças entre os companheiros de fé: São Pedro faz um tour pelo Paraíso com um grupo de recém-chegados. Vai mostrando a morada celestial à esquerda, Noé descansando lá longe, até que passam por uma área cercada com um muro e ele pede silêncio a todos: “Psssiu! São os batistas regulares. Eles acham que estão sozinhos no céu”.

Terreno do Seminário Batista, no bairro triângulo, próximo a onde hoje encontra-se o Cariri Garden Shopping

Terreno do Seminário Batista, no bairro triângulo, próximo a onde hoje encontra-se o Cariri Garden Shopping

Sugestões de Leitura