Arte e Cultura, Revista 0

Asas partidas, luz e sombras

Em fevereiro, o Crato perdeu dois de seus talentosos artistas: Sérvulo Esmeraldo e Geraldo Urano. O escritor e médico José Flávio, também cratense, se despede dos amigos e relembra as histórias, as obras, a poesia e a arte que fizeram parte das vidas de Sérvulo e de Urano.

Sérvulo Esmeraldo (27/2/1929 – 1/2/2017)

Desceu do comboio um dos nossos queridos companheiros de travessia. Sérvulo Esmeraldo era cratense de carteirinha. Antes de se tornar artista plástico de renome internacional, transitou por muitas linguagens: gravura, ilustração, pintura e a escultura. Degustou, também, o sabor de muitas escolas, como o Figurativismo, a Cinética, a Abstração e o Construtivismo. Permanecem mais claramente na nossa memória afetiva as esculturas geométricas de linhas, sombras e luz que foi espalhando mundo afora. Ligado umbilicalmente ao Cariri, estas formas devem ter brotado, naturalmente, das tortuosas e íngremes ruas do Crato, do relevo da nossa chapada. E foi aqui que ele, no ano passado, quase como um testamento, resolveu fazer sua última exposição. À medida que o desembarque se aproximava, Sérvulo retornava mais e mais, sentimentalmente, às suas raízes. Tinha a certeza absoluta que a última parada do seu trem seria na Praça dos Pombos.

Sérvulo mantém aquele desígnio profético de que ninguém é profeta na sua terra. A cidade não lhe retribuiu a paixão desenfreada. Fica na nossa paisagem natural apenas uma escultura, no Alto do Seminário, doada por ele mesmo no seu retorno derradeiro. Permanece como um legado artístico que observa do poleiro a degradação arquitetônica da Vila de Frei Carlos. Edifícios em caixão, significativos ao funeral que se vai perpetrando. Monumentos públicos estéreis. Ruas frias e sem história, demonstrando a incompetência fenomenal que sempre tivemos de fazer conviver o moderno com o tradicional, de fazer dialogar o passado glorioso com o presente desbotado.

Sérvulo parte e deixa sua arte estampada nas paredes do nosso trem. Ela continuará a encher os olhos dos futuros passageiros, que agora terão outros cenários a desfrutar, além dos que passam freneticamente pelas porta e janelas do trem. Se observarmos direitinho, ele continua sentado em uma das poltronas, discretamente, conversando com os que passam, apressados, tangidos pela vida. Sérvulo, como um monge tibetano, nos ensina, dia a dia, que na vida e na arte tudo se resume ao equilíbrio entre Sombra e Luz. O pássaro adejou as asas e partiu, mas fica entre nós o seu canto!

Geraldo Urano (10/06/1953 – 05/02/2017)

O universo é uma tremenda loira

que vive no infinito

eu faço cócegas no seu pé.”

Nos despedimos do maior poeta caririense da minha geração: Geraldo Urano. Sua poética fazia com que se quebrassem todas as barreiras cósmicas, históricas e geográficas. Como se entendesse que por mais distante que todos estivéssemos na viagem, ocupávamos todos o mesmo barco. Seja em direção ao éden ou ao precipício. Em meio à moléstia incapacitante e traiçoeira que o acompanhou como uma amante possessiva por quase cinquenta anos, continuou na sua arte como um pássaro que, mesmo mortalmente ferido, de asas partidas, permanecesse cantando. Por quê? Simplesmente porque num planeta tão opaco, insípido e inodoro o canto é essencial. Ele se torna a única possibilidade de demonstrar outras perspectivas banhadas de luz e de esperança.

Quem vê de longe o poeta, em meio ao caos e à estupidez humana, deve rir da iniciativa, que parecerá pueril, tal como uma criança que colocasse o pintinho mortalmente ferido debaixo da cumbuca e batesse em cima, ritmicamente, na certeza de que recobrará as forças e o sentido. Mas, por incrível que possa parecer, acredito que a possibilidade de salvar o passarinho está mais nas mãos da criancinha do que nas daqueles que empunham o gatilho da espingarda.

Não vejo futuro generoso para uma humanidade contábil, burocrática, atenta unicamente às operações de somar e multiplicar. Os códigos da vida são bem mais amplos do que os códigos de barra. Impossível decompor a vida num máximo divisor incomum. Aldous Huxley se interrogava se este mundo não seria apenas o inferno de um outro planeta. O certo é que aqui coabitam também um paraíso e um purgatório. Inferno dos pobres, purgatório dos remediados, paraíso dos abastados.

Os poetas, profeticamente, vislumbram um éden comum a todos. É utopia, sim, mas como subsistir sem ela? O mundo fica mais triste e chato sem Urano, que deu suas lições e, hoje, está fazendo cócegas no pezinho da loura universal. E ela gargalha…

 

RICARDO CAMPOS
A imagem em destaque é de Ricardo Campos, artista visual que encerra as páginas da edição #30 da CARIRI Revista e ilustra o texto DESPEDIDA, de José Flávio.

Ricardo Campos é poeta e artista visual juazeirense. Em Guardanapos, série de 22 obras que estreou em 2011, ele retrata noitadas, cenas e personagens de uma Juazeiro entre o pesadelo e a embriaguez. Ainda neste ano, Ricardo expõe uma coleção inédita de desenhos feitos em cerâmica e pedras. Abaixo, a mesma estética urbana e sombria na série Linhas, de 2014.



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