Cariri Sustentável

Artesão do Crato cria instrumentos musicais a partir do lixo

Nos fundos de sua modesta casa no bairro Lameiro, em Crato, o músico, artesão e pedreiro Aécio Ramos e sua esposa, Tereza Ramos, comandam há 22 anos o Projeto Cultural Edit Mariano (Procem), onde educam musicalmente e instruem no ofício da confecção de instrumentos musicais jovens de baixa renda. Um destaque por si só, o Saiba mais

Por Alana Maria • 10 de fevereiro de 2018

Nos fundos de sua modesta casa no bairro Lameiro, em Crato, o músico, artesão e pedreiro Aécio Ramos e sua esposa, Tereza Ramos, comandam há 22 anos o Projeto Cultural Edit Mariano (Procem), onde educam musicalmente e instruem no ofício da confecção de instrumentos musicais jovens de baixa renda. Um destaque por si só, o projeto ainda enverga por uma política ambientalista e sustentável admirável: todo material utilizado nas aulas e oficinas são totalmente reciclados. Muitos, aliás, foram retirados de entulhos urbanos e da beira de riachos cratenses.

Agindo como um “guardião da natureza”, como o próprio se intitula, o artesão autodidata elabora, adapta e confecciona os mais diferentes e criativos instrumentos musicais a partir de madeira, plástico, ferro e outros matérias que encontra no lixo. A conta de quantos instrumentos criou nos últimos 15 anos que vem dedicando ao ofício de luthier sustentável está perdida na memória, mas garante que pelo menos 400 peças estão bem guardadas em seu galpão prontas para uso.

Da madeira de um guarda-roupa antigo, surgem violões. Já uma porta de boa madeira pode dar origem a alguns violinos. Uma cadeira quebrada pode-se retirar o suficiente para fazer os pinos dos instrumentos. “Você se espantaria como as pessoas jogam bons móveis no lixo. Ano passado encontrei um guarda-roupa velho, quebrado, molhado, de 6 metros, feito de cedro e jacarandá, que pude reutilizar quase por inteiro”, relata.

Especialista em reconhecimento dos tipos de madeira, Aécio vê de longe o que pode ou não ser aproveitado. Sua maior busca está em móveis antigos ou peças de cedro, jacarandá, pau d’arco e imbuia, tipo de madeira mais apropriados para confecção de para instrumentos musicais. No entanto, afirma que qualquer madeira, desde que não esteja podre, dá-se um jeito de utilizar.

Violoncelo, lira, rabeca, alaúde, birimbau, banjos, guitarras, flautas does e transversais, pífanos e tambores, sem esquece também a zabumba e o pandeiro. Esses são apenas alguns exemplos de instrumentos já confeccionados por Aécio a partir do que tira do lixo.

Sem grande preocupação estética, os instrumentos do Procem são ações educativas. “Do material morto, eu crio vida e arte”, declara, sem modéstia. O trabalho de Aécio é a prova viva de que o conceito de lixo é mais flexível do que aparenta ser. “Qualquer material sem valor ou utilidade, ou detrito oriundo de trabalhos domésticos, industriais etc. que se joga fora”, diz o dicionário. O pronto essencial do ensinamento aqui é tanto teórico como prático: o que pode ser sem utilidade para você, pode ter utilidade para o outro.

A oficina do luthier sustentável é desorganizada a seu jeito. Acúmulos de pedaços de madeira aqui e ali compartilham lugar com chapas de aço, fios de ferro e plásticos variados que vão ser transformados. Impossível é deixar de notar os instrumentos em fase de construção. Uma sanfona pela metade chama a atenção. Aécio afirma ser a primeira do tipo no Brasil.

Crianças e adolescentes participam de aulas de música e confecção de instrumentos no Procem. A iniciativa comunitária é voluntária e gratuita (Foto: Allan Bastos)

O PROJETO CULTURAL

Voluntário e totalmente gratuito, o Projeto Cultural Edit Mariano, batizado em homenagem a mãe de Tereza Ramos, nasceu como uma pequena iniciativa comunitária do bairro Lameiro para ocupar o tempo ocioso de crianças e adolescentes com música, arte e educação.

A iniciativa tomou maiores proporções a medida em que novos professores voluntários passaram a participar. O Procem já formou mais de 2.000 alunos, estima a organização.

A dedicação do Procem gera frutos que vão além de notas musicais. Ex-alunos encontraram suas vocações e talentos, alguns dando continuidade aos estudos avançados no ensino superior e outros já trabalhando como músicos profissionais.

A adolescente Andrecyelle Oliveira, 15 anos, participa das aulas de canto e violão do Procem desde a infância. Para ela, o projeto a ensinou a valorizar a curiosidade em aprender coisas novas e a respeitar o trabalho e a dedicação dos colegas.

 

Alana Maria

Alana Maria Soares é jornalista da Cariri Revista desde 2015.
Formou-se pela faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus Cariri, onde produziu o programa cultural Percursos Urbanos Cariri, pela UFC e CCBNB, entre 2012 e 2014. Pela Editora 309, ainda produziu a Casa Cariri Revista, o Manual Inteligente da Água, o Jornal Universitário da Unileão em 2016 e 2017, entre outros produtos editoriais.
RP: 0003947/CE