(Foto: Helio Filho)
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Ampulheta hídrica ou o Cariri que maltrata seus rios

Outrora pergaminhos da alegria, sinônimos de esperança, cenários das histórias que revelam a identidade de suas cidades, os rios Batateira, Granjeiro e Salgadinho hoje estão cansados e contaminados à espera de um ato de coragem.

As histórias banhadas pelas velhas águas do Rio Salgadinho são contadas em conversas desinteressadas, mas devidamente guardadas pelos atentos à memória, e começam na infância de alguns e na velhice de outros. São lembranças dos meninos correndo, despindo-se à primeira vista daquelas águas, mirando a tibungada, atrepando-se nas árvores para um salto heroico na ânsia de ouvir “uau!” dos outros meninos. Das mulheres que tantas roupas ali lavaram e de outros tantos que ali pescaram. Dos primeiros andarilhos a descansarem sob a sombra do pé de juá, estacionados no vale do Cariri, oásis do sertão, admirados de sua riqueza, formando o Tabuleiro Grande. Também são os vestígios quase esquecidos dos índios kariris, nossos ancestrais eternamente injustiçados, que muitas disputas travaram com os calabaças, no local onde anos depois Padre Cícero lavaria os pés.

Fusão dos rios Batateira e Granjeiro – nascidos nas ricas fontes da Chapada do Araripe, em Crato –, essas águas são batizadas de Rio Salgadinho quando atingem Juazeiro do Norte, e seguem formando a sub-bacia do Rio Salgado, rasgando 23 municípios. Ainda considerado um dos primeiros “precursores do progresso” de Juazeiro do Norte, o Salgadinho não é mais o mesmo. Parece unânime e inevitável a conclusão de que o maltratamos ao longo dos anos de progresso. “Suas águas, aos poucos, escurecem e cheiram mal. Um cheiro de curtume, de hospital. Um cheiro ruim, um fedor de excrementos de animal. Cheiro de esgotos, vinhoto, tanto mal”, escreveu o poeta Hélio Bezerra, em 1997, no livro Salgadinho: Renascimento ou Morte.

Os parcos esforços para salvar o que o desprezo e a falta de políticas ambientais colocaram em risco parecem não ser suficientes e o Salgadinho deixou de ser motivo de alegria para se tornar um problema turvo e cheio de lodo no calcanhar da sociedade caririense. Há ações pontuais de fiscalização nas indústrias, principalmente nas que desenvolvem processos de galvanoplastia e curtume, cujos rejeitos eram despejados à vontade no rio como esgoto.  Há também um maior rigor nos processos de licenciamento para a abertura de empresas, as quais precisam apresentar planos de gerenciamento de resíduos sólidos e de rejeitos. A revitalização, porém, não consta na agenda de prioridades.

“É um rio de amor que vem trazendo o cristal que regala a todos nós. Seu gemido é segredo que eu desvendo, pois nele fala o Crato em terna voz”, escevreu J. Alves de Figueiredo (Foto: Hélio Filho)

“É um rio de amor que vem trazendo o cristal que regala a todos nós. Seu gemido é segredo que eu desvendo, pois nele fala o Crato em terna voz”, escevreu J. Alves de Figueiredo (Foto: Hélio Filho)

O RIO QUE CORRE NA MINHA ALDEIA

Era o dia de seu aniversário, 20 de janeiro, mas ele aceitou fazer a entrevista. José Eraldo Oliveira Costa, um capricorniano não consumista, que faz compostagem de material orgânico em casa, cultiva um jardim e frequentemente deixa o carro na garagem e pedala pela cidade sem estrutura de ciclofaixas, não esconde o orgulho ao afirmar que, da região do Cariri, conhece tudo por ar e por terra. Ele mesmo não esperaria menos de si, pois após cinco anos na chefia do IBAMA, em Crato, e alguns tantos outros nas pastas da Agricultura, Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico, agora é superintendente da Autarquia Ambiental de Juazeiro do Norte. Sua paixão por um assunto de que muitos tendem a fazer pouco-caso já o levou a ser ameaçado de morte algumas vezes. Não teme, no entanto, faz parte do trabalho.

Sobre a Ponte II do Rio Salgadinho, próximo ao recém-construído anel viário na Avenida do Contorno, Eraldo revela, sem temor, que não houve políticas públicas dos municípios caririenses para a proteção das águas e que os órgãos ambientais são deficientes. O próprio anel viário, uma das principais obras atuais – que promete trazer maior mobilidade e tem aprovação da Semace –, causa pressão maléfica sobre o rio. Nem é preciso ser entendedor das questões hidroambientais para deduzir que fábricas à beira do Salgadinho não representam um cenário benéfico. No entanto, ali está funcionando, à vista de todos e com licenciamento, uma incineradora de material hospitalar. Ao lado há uma fábrica de vinhoto, felizmente fechada há 30 anos.

Eraldo Oliveira: “Planos de desenvolvimento com base na água é uma loucura!” (Foto: Helio Filho)

Eraldo Oliveira: “Planos de desenvolvimento com base na água é uma loucura!” (Foto: Helio Filho)

O problema começa onde também brotam as águas: por nascer nas fontes da Batateira, de nada adianta o Juazeiro despoluir sua porcentagem se, em Crato, o rio Granjeiro, tributário do Salgado, serve de esgoto a céu aberto. Antes largo, pomposo, rico em vida, o Granjeiro já cortou o Crato, como o Salgadinho cortou Juazeiro. “É um rio de amor que vem trazendo o cristal que regala a todos nós. Seu gemido é segredo que eu desvendo, pois nele fala o Crato em terna voz” publicou J. Alves de Figueiredo no jornal Folha da Semana, em 1953. Como um escambo indiscriminado ao progresso das cidades, Crato aterrou, cimentou e concretizou a morte do rio, canalizando e desfazendo seu roteiro original.

O desenvolvimento, então, sugou as águas que “jorravam do chão”, vindas dos aquíferos do subsolo. O avanço das cidades fez multiplicar os desmatamentos e barramentos. As queimadas, o depósito de toneladas lixo a céu aberto e o escoamento de esgotos in natura das indústrias e casas tornaram intermitentes os rios e riachos da região do Cariri. O inevitável encanamento da água das fontes para abastecimento e irrigação resultou na baixa do volume dos rios, que se tornaram estagnados, quase mortos.

Em seu escritório, Alberto Brito, gerente da sub-Bacia do Salgado da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (COGERH), a qual o Cariri pertence, é requisitado pela imprensa a cada meia hora para falar da estiagem. Ele faz questão de lembrar que, em épocas passadas, os registros descreviam a maioria dos rios da região como perenes, ou seja, suas águas corriam o ano inteiro. Hoje, a mesma fonte em que nascem os principais rios também abastece 30% da cidade do Crato. “Essa água não desce mais pelo rio, mas por tubulações até chegar às casas. Ela só volta depois, já em forma de esgoto, que é despejado no Rio Granjeiro e no Rio Batateira”, esclarece Alberto.

A ausência de saneamento e a falta de ligação das casas com as redes de esgoto nas cidades do Crajubar assustam: com vasta rede, Barbalha está, em média, 78% saneada, mas o número de ligações é tão baixo que a lagoa de estabilização foi desativada. Com 56% de rede de cobertura, Juazeiro segue o mesmo caminho no que se refere às ligações de esgoto. Já em Crato, com apenas 20% de cobertura, saneamento parece não configurar preocupação nenhuma ao poder público, uma vez que o município sequer possui uma estação de tratamento de água.  

FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

Janeiros vêm, janeiros vão e suas chuvas fazem emergir assuntos mal resolvidos com a natureza: o canal do Rio Granjeiro transborda, as pontes quebram, as casas alagam, os carros flutuam, estragos são debitados; o riacho Timbaúbas, afluente do Rio Salgado, enche e faz a velha Lagoa Seca inundar, levando com ela a Avenida Leão Sampaio. Rancor dos rios, com justiça, ninguém poderia ter, pois ao tomar água eles correm, sem se importar, rasgando o que está pelo caminho. “É vingança”, alguns alegam. Esses lembram que o ciclo da natureza e da matéria orgânica é criar e destruir, tudo pelo equilíbrio. Porém, cada vez mais, produzimos materiais que não se desfazem naturalmente.

O sofrimento, vez ou outra, aponta culpas que recaem sobre ideias mal elaboradas de desenvolvimento econômico. E onde mais se precisa de agilidade, predomina a lentidão das resoluções, um sentimento familiar a um país burocratizado. “Planos de desenvolvimento com base na água é uma loucura, loucura!”, branda Eraldo, aquele capricorniano não consumista, que anda de bicicleta e faz compostagem doméstica, também superintendente do Meio Ambiente de Juazeiro do Norte, lembrando a política hídrica do Estado que, entrando no quinto ano consecutivo de seca, subsidia o abastecimento do complexo industrial do Porto do Pecém com 5.000 litros de água por segundo.

Outra vez, Hélio Bezerra traduz o sentimento: “O Rio dá aos homens tudo isso que eles buscam em suas águas. São esses mesmos que pouco caso fazem do Rio que vez e outra alimenta suas famílias. O Rio é o próprio mar dos que buscam suas águas, sem inferiorizá-lo, em relação à imensidão do oceano. É a própria alegria, travestida de magia, amor e passividade”.

Em 1950, as famílias Morais e Germano se deliciam nas águas profundas do antigo Rio Salgadinho (Foto: Acervo Pessoal / Célia Morais)

Em 1950, as famílias Morais e Germano se deliciam nas águas profundas do antigo Rio Salgadinho (Foto: Acervo Pessoal / Célia Morais)

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