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Sem compra oficializada, estudantes e professores do Centro de Artes ocupam prédio do SESI para retomar atividades

Atraso: sem local para aulas, o calendário do curso de Artes Visuais ainda está no semestre 2017.1.

Em 2018, o Centro de Artes da Universidade Regional do Cariri completa 10 anos de existência, mas o que seria motivo de comemoração, é avaliado por alunos e professores como marco de uma década de descaso. Ainda sem um campus oficial após terem que deixar, por questões de segurança, as instalações no campus Pirajá, em Juazeiro do Norte, cerca de 200 estudantes, 30 professores e servidores do Centro de Artes decidiram em assembleia pela ocupação prévia do antigo prédio do SESI, em Crato, sem esperar a conclusão da aquisição pelo Governo do Estado, responsável pela URCA.

Negociações entre o Governo estadual, a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), atual proprietária do imóvel, e a FIEC Nacional acontecem desde outubro de 2017, sem desfecho oficial.

Diferente daquela ocorrida em 2016 no campus Pirajá, esta ocupação não tem caráter de acampamento. Dessa vez, o objetivo é demarcar a necessidade de agilidade na compra do prédio para que as aulas, ainda travadas no semestre 2017.1, continuem e se normalizem.

 

Força-tarefa de limpeza foi composta por estudantes, professores e servidores da URCA (Imagem extraída do vídeo de Amilton Duarte).

 

As primeiras movimentações começaram na sexta-feira, 20, mas foi na segunda-feira, 23, estudantes e professores se juntaram aos funcionários de manutenção e limpeza da URCA para organização do espaço. Uma limpeza geral, incluindo campinagem de mato, continua a ser realizada pelo coletivo universitário.

Um dos professores a participar da limpeza do novo espaço, Rubens Venâncio, também membro da comissão que acompanha a compra do prédio, explica que “mais que uma ação de limpeza necessária, o que realizamos foi um ato simbólico para transformar esse espaço em um local para abrigar às artes”.

“O Centro de Artes já passou por demais. No Pirajá, nós trabalhamos e os alunos estudaram em situação de insalubridade e constante risco de acidentes”, afirma o professor, que ressalta, ainda, a necessidade de compra de materiais específicos para essas áreas do conhecimento, como mobiliário para ateliês, como cavaletes e mesa para desenho e pintura, pigmentações, pincéis, câmeras fotográficas, ilhas de edição, teatro experimental, sala para aula de corpo etc.

“Escola de Artes não se dá através de material de expediente. Esses materiais específicos que deveriam ser disponibilizados pela Universidade são, na verdade, comprados pelos próprios alunos no decorrer do curso”, denuncia Venâncio.

 

Esforço coletivo para limpara o prédio (Imagem extraída do vídeo de Amilton Duarte)

 

Mesmo sem cadeiras suficientes ou qualquer material de apoio, algumas aulas já estão acontecendo no prédio ocupado. “Acabei de assistir uma aula com a turma toda sentada no chão, porque nós queremos ter aula, a verdade é essa”, desabafa o estudante de Teatro, Lucas Galdino, 22, no último ano de curso. “Tive uma reunião de orientação do meu TCC com som de motosserra no fundo”, exemplifica.

“É difícil estudar sem a estrutura para isso. Sempre precisamos procurar alternativas para adaptar nossos experimentos porque o básico, que é o próprio teatro, não existe na Universidade, mas agora temos a expectativa de que tudo ande e nossas aulas voltem ao normal”, anseia.

“Teatro é meu sonho, eu quis arriscar, na esperança que melhorem as condições e que um dia tenhamos o mesmo respeito que o curso de Direito tem, por exemplo”, revela a estudante caloura Diana Ares Norões, 19, filha de agricultores do município de Tarrafas.

Atividades de pesquisa, extensão e administrativas relativas ao Centro de Artes deverão ser transferidas para lá. Até o momento, o administrativo se resume a um biró no pátio central. Não há computadores.

 

NOVO PRÉDIO

Uma comissão de acompanhamento da compra mapeou o prédio do SESI, constatando 37 salas, um auditório e um espaço que poderá alojar um teatro. Sem água encanada e com diversos problemas infraestruturais como no piso, paredes e portas, além da rede elétrica e rede de água e esgoto, a serem consertados emergencialmente, os membros do Centro de Artes esperam não apenas pela compra oficial, mas também pela ordem de serviço de R$ 450 mil para a segunda fase da reforma.

Toda a obra está orçada em R$ 60.654,22 e deve ser realizada pela empresa SM Construções LTDA.

 

> VÍDEO (Amilton Duarte)

 

 

COMPRA NÃO FOI OFICIALIZADA

“Não existem documentos que dizem que este espaço foi adquirido pelo Governo do Estado do Ceara para o Centro de Artes da URCA”, afirma o professor Rubens Venâncio. “O Governador anunciou a compra, publicou no seu Facebook, mas não há nada oficializado. Dia 15 de março foi o limite dado para a entrega dos documentos da negociação e nada aconteceu”, completa.

Ainda em dezembro de 2017 a própria URCA publicou em seu site uma nota de esclarecimendo anunciando janeiro de 2018 como data de reabertura do Centro de Artes no prédio do SESI. Na data, as aulas de Artes Visuais aconteceram de forma improvisada no já superlotado campus Pimenta e as aulas do curso de Teatro foram ministradas no Teatro Rachel de Queiroz, alugado.

Procurado pela reportagem, o Gabinete da Reitoria reproduziu mensagem do Reitor Patrício Melo, que estava em conferência, afirmando que as negociações continuam e a reitoria está otimista com o processo que tem prazo de 6 meses para ser concluida.

 

Almoço coletivo improvisado. (Foto: Wandeallyson Landim)

 

HISTÓRICO

Estudantes, professores e servidores do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da URCA, que abriga as faculdades de Artes Visuais e Teatro, já passaram por greves, ocupações de resistência e três mudanças de campos em sua primeira década de existência.

Primeiro instalado no centro de Barbalha, o Centro passou para o equipamento no bairro Pirajá, em Juazeiro do Norte, onde enfrentou seus principais desafios. Desde 2013 foram greves, uma ocupação de 100 dias e uma interdição via laudo da Defesa Civil que atestou as perigosas condições prediais.

O laudo que apontou rachaduras estruturais nas paredes e rede elétrica defasada com risco de choque foi o que motivou a administração da Universidade a interditar o campus definitivamente.

 

Alunos e professores capinam mato que cresceu no prédio desocupado (Imagem extraída do vídeo de Amilton Duarte)

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