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Crônicas 0

Ainda aprendo a diferenciar seres humanos de coisas

Uma carta ao Bakunin

Sr. Bakunin,

Escrevo-te essa carta por julgar ser este o meio de comunicação mais adequado para um homem de sua época. O Senhor muito provavelmente não responderia uma mensagem no Whatsapp nem uma cutucada no Facebook. O fato é que encontrei por acaso – juro – uma cartinha sua endereçada a seu irmão Pavel. E que carta! Fiquei aturdida.
 Sabe, Bak? – posso te chamar assim, né? Você realmente me fez pensar nessa coisa de libertar quem se ama.

Lembrei de uma comédia romântica que vi na adolescência – “P.S Eu Te Amo” – e que me fez chorar rios enquanto eu tentava aceitar o fato de que não é uma loucura absurda querer ver feliz quem amamos.

Quando te li dizer que amar não te desesperava, suspeitei. Como é possível amar sem desespero? Daí você tentou explicar a seu irmão que pretendia fazer com que aquela que você ama reconhecesse sua força própria, desejasse sua liberdade e entendi repentinamente que você não a via como coisa sua, mas como uma mulher dela mesma. Como te admirei, Bak!

Confesso que apesar de toda admiração, assimilar esse deixar ser, na verdade, um motivar a ser, fruto de um amor ativo, me perturbava – de fato, ainda perturba – e eu remoí muito o que encontrei na sua carta antes de decidir te escrever. Minha decisão foi na verdade tomada por causa de Gerry, a personagem da tal comédia romântica que te falei.

Gerry amava Holly intensamente, eles haviam vivido dias felizes até a morte dele e aparentemente é isso. O tal Gerry se vai e deixa umas cartinhas para Holly. As amigas da moça acreditam que essas cartas fazem mal por mantê-la presa a história dos dois, mas o filme termina [spoiler alert, Bak!] com a surpresa de que, na verdade, a intenção de dele é libertar ela.

Nunca vi “P.S Eu Te Amo” como uma história de amor além da vida. Talvez o moço lá só queira libertar Holly por já estar morto. O que você acha? O fato é que eu sofri horrores até “permitir” que Holly fosse feliz.

Ah, Bak! Eu tenho esse temperamento possessivo, bem sei. Mas sou só eu?

Ainda estou tentando aprender a diferenciar seres humanos e coisas.

Enfim, ainda não posso te dizer que não tenho medo da liberdade. Ainda não sou capaz de escrever bilhetes de “alforria” para quem amo. Mas amo, amo imensamente, percebo que é muito mais fácil reivindicar liberdade do que libertar; devo isso a sua carta encontrada por acaso.

Saudações,

Andréa Furtado


Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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