Cariri das Antigas
Crônicas 0

Ah, Juazeiro!

Meu corpo torna-se vertiginosamente frágil quando caminho sozinha pelas ruas do centro da antiga comunidade construída em torno dos três pés de Juá. Essa fragilidade é imposta pela cidade e seu ritmo, pelo vazio das vias nos fins de semana e pelo amontoado de gente que circula pelas mesmas vias durante a semana. Estamos no mês da Padroeira.

Eu não tenho tempo e aparentemente ninguém mais o tem. Não contemplo e não sou contemplada. As imagens – sim, porque não é fácil distinguir pessoas e suas sombras móveis no mês de setembro em Juazeiro – parecem escorregadias, incapazes de serem fixadas, não consigo mais guardá-las. Houve uma época em que meu olhar era mais lento e é sobre essa transição que eu senti vontade de falar, pra ter noção de começo meio e fim, sei lá.

Logo quando cheguei em Juazeiro, ainda criança, iniciei imediatamente meu traçado infantil do mapa da cidade. O percurso da Rodoviária até a Rua do Limoeiro foi filmado pelos meus olhos de criança com grande interesse, tudo era misterioso e novo!

Aos 10 anos de idade eu caminhava sozinha até a escola que ficava à três quarteirões de casa, minha primeira viagem sozinha! Eu gostava de observar as casinhas de muro baixo, via e me esforçava para ouvir os mais velhos sentados na calçada papeando, sentia a incrível novidade que era não ter asfalto debaixo dos meus pés e gostava especialmente da sensação de conhecer cada parte daquele percurso mesmo se o seguisse de olhos fechados. Foi assim que eu construí uma espécie de unidade com o Bairro São Miguel, caminhando.

Calçadão nos anos 70 (Foto: Acervo Renato Casimiro / Cariri das Antigas).

Calçadão nos anos 70 (Foto: Acervo Renato Casimiro / Cariri das Antigas).

Ao passo que eu crescia meus passos alcançavam mais ruas. Logo minha vó me incumbiu das tarefas bancárias de uma budeguinha que ela mantinha em frente ao Senac. Eu me sentia muito importante! Agora eu poderia alçar novos voos e para além do São Miguel eu passei a caminhar pelo Centro. O Centro de Juazeiro era um mundo. Dos mundos que eu conhecia, ele era o mais encantado. Tinha de tudo. Tinha toda gente. A multiplicidade me fazia múltipla.

Saía da Rua do Limoeiro antes mesmo de fazer as tarefas de casa, seguia pela Rua Santa Luzia até o BIC cheia de orgulho da tarefa que exercia e completamente entregue à paquera com as ruas que compunham meu itinerário. Namoramos por anos. Eu apreciava saber o nome de cada rua, conhecer os cruzamentos, dar de conta de cada tipo de comércio abrigado pelos prédios do Centro.

No Banco eu fazia questão de cumprimentar cada funcionário! Conhecer pessoas tornou-se minha aventura preferida. Eu observava com curiosidade a maneira como se vestiam, o que conversavam, o jeito próprio de cada sorriso ou expressão queixosa.

Socorro, anos 80 (Foto: Acervo Renato Casimiro / Cariri das Antigas)

Socorro, anos 80 (Foto: Acervo Renato Casimiro / Cariri das Antigas)

Dos lugares que minha memória melhor conservou, a lanchonete de Luizinho ainda me desperta muito carinho. Ele me recebia sempre com o mesmo cumprimento: Tudo bom Pequeninha? E logo me servia coxinha com suco de abacaxi. Lembro disso com a barriga roncando e a boca cheia d’água! Foi assim por muito tempo, até que um dia ele me fitou e surpreendeu-se: Eita, tu cresceu, hein? Eu sorri. Me sabia crescida principalmente pelo desencantamento que substituiu meu amor pelo Centro. Agora tinha carro demais, muita loja fechada e pasme o BIC tinha inventado de colocar aquela porcaria de porta giratória! Gente, sério, portas giratórias são uó!

Eu e o Centro nos desencontramos. Eu comecei a trabalhar, estudar à noite, me encher de compromissos e sei lá quê. As coisas foram deixando de ser. Daí, eu estou aqui hoje, com saudade de enxergar e me encantar com Terra do Padim e pra dizer que meu corpo que antes era parte das ruas nas quais eu caminhava torna-se frágil e que isso é imposto pelo ritmo, pelo amontoado ou esvaziamento das vias, mas também porque eu deixei de caminhar.

E agora?


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