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Acharam um buraco misterioso na rua Padre Cícero. E agora?

A cidade de Juazeiro vem, nos últimos dias, vivendo um intenso debate e a motivação é um “buraco” que foi encontrado durante as obras de drenagem da rua Padre Cícero, obra anexa ao projeto de reforma da Praça Padre Cícero. Fechada por uma tampa de madeira da mais excelente qualidade – prova disso é a sua resistência às intempéries do tempo e ao fluxo de veículos bastante intenso – a estrutura misteriosa tem dividido opiniões, e aqui vai a minha.

Independente do uso ao qual tenha sido projetado – e as apostas são muitas, indo desde uma corriqueira fossa séptica até um depósito de armamentos utilizado durante a Guerra de 1914 – o achado nos atenta para os muitos silenciamentos históricos que nossas cidades vivem.

Alguns pela simples ação do acaso, outros pela complexa atuação dos interesses políticos, financeiros e etc. São silenciamentos que ocorreram ao longo de nossa história e consistem em um imenso prejuízo à sociedade em geral.

Pode-se abrir o depósito e nada encontrar. Mas também é possível que ali existam fragmentos importantes, soterrados por espessas camadas de matéria e tempo, que nos ajudarão a contar melhor nossa história. Somente a intervenção de profissionais no local nos dará tal resposta.

 

 

(Foto: Daniel Walker/Reprodução)

 

(Foto: Daniel Walker/Reprodução)

 

A demolição prédios históricos, alargamento de ruas, reformas de igrejas e outros prédios sempre fazem pipocar pelo país casos como esses. Assim temos sítios arqueológicos e históricos descobertos, mapeados e preservados, como é o caso do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Mas e aqui no Cariri, o que se tem feito?

Apesar de trabalhos importantes como o da Fundação Casa Grande, o volume de intervenções ainda é insuficiente. Se avolumam potenciais locais que poderiam nos fornecer dados para compreender melhor a vida citadina e rural da região.

Contextos como esse, somado ao desinteresse de boas camadas da população em relação a descobertas arqueológicas e históricas nos mostra como o Cariri ainda tem de avançar em relação a suas políticas públicas de preservação e educação patrimonial e como nossos processos de educação formal passam ao largo de toda nossa complexa história regional.

Voltados para o vestibular e orientados por uma matriz historiográfica eurocêntrica, é compreensível que o desprezo e desconhecimento pelo que é local seja tão acentuado, mas normal nunca será, pelo menos não para mim.

 

Roberto Júnior.
Historiador amador desde os 13 anos, fundador do projeto Cariri das Antigas e secretário-geral do Instituto Cultural do Cariri. Atualmente cursa História na Universidade Regional do Cariri.

 


Este é um artigo de opinião. As informações aqui expressas são de inteira responsabilidade do autor(a).

Fotografia: Reprodução/Portal de Juazeiro do Norte/Daniel Walker

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