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A viagem vertical

Em uma crônica-reportagem, nosso repórter relata sua busca pela ancestralidade kariri

Minha avó veio me visitar na casa onde eu já não moro. Mas não era a minha avó, era como se fosse a avó de uma das minhas avós — não sei qual das duas, se Vó Dora ou Vó Helena. Ela tinha cabelos longos e brancos, tão despenteados e sujos que lhe faziam parecer meio assustadora. Vestia uma roupa comprida e solta, como uma manta. Andava apoiada em um cajado, e onde ela pisava ou tocava as mãos surgiam sementes. Ela foi da sala até o quintal, para onde a janela do meu quarto era virada, e me encarou. Segurou na quina da janela e ali apareceram sementes. Várias. De fazer brotar todo tipo de planta. Olhando de perto, vi que ela parecia ser uma índia cabocla e tinha ar de rezadeira. Se não era índia, no mínimo morava em um mato dessa Barbalha velha de guerra. Se não era rezadeira, no mínimo entendia de invocação e alquimia. Ela disse: “Meu filho, eu tô lhe observando daqui. Eu vejo tudo. Tô cuidando de você. Essa angústia no seu coração… Se preocupe, não”. (Isso tudo foi um sonho).

Na primeira vez em que fui ao sítio dos pais do meu amigo Marcello, eu disse a ele: “Essa floresta quer falar comigo”. Não era brincadeira. Senti uma coisa me chamar. Sempre que volto lá no Saco, distrito barbalhense entre Arajara e Caldas — ou seja, no meio do paraíso —, saio andando só, falando com a mata. Falando com o passado. Tem um rio que secou e seu trajeto foi tomado por árvores. O lugar onde eu mais gosto de ficar é numa clareira arrodeada por plantas altas. Um cantinho da Chapada do Araripe ao fundo dá o último toque na ornamentação. Para chegar lá, preciso ir engatinhando por entre as raízes do rio defunto. Certa vez, ouvi um barulho de enchente e, por um instante, achei que era o rio voltando. Lembrei de uma frase de Violeta Arraes: “O barulho do vento na Chapada é o Cariri chorando com saudade do mar”. Entendi por que o sítio dos pais de Marcello me deixa com a sensação de que eu volto ao passado. Antes daquele rio ter água. Antes de nós termos ancestrais. Não, é um passado bem mais distante. Milhões de anos atrás. Quando o sertão era mar. (Isso aconteceu de verdade.)

No Sítio Barro Vermelho, em Barbalha, viajei para cima e para baixo. Viajei para dentro, tão dentro que tive medo de me perder em mim. Vi a criação do mundo. Recordei a minha última morte e o meu mais recente nascimento. Voltei para dentro da barriga da minha mãe e vi novamente os meus primeiros e melhores anos. Vi umas luzes no céu que certamente não eram aviões. Ouvi a Mãe Terra dizer que cuida de mim. Ouvi Jesus dizer que me fez companhia enquanto estive na escuridão. Simplifiquei algumas equações e recebi outras para resolver. Senti pela primeira vez uma forte e genuína gratidão. Agradeci pelo amor da minha mãe e pela presença dela comigo até hoje. Agradeci pelos meus amigos, pelas minhas avós, pela paciência que Deus ainda tem com a humanidade. Entendi que o tempo do planeta Terra está acabando. Subi alto, nos planos mais estrambólicos do Universo. Também desci ao ponto mais abissal de minha alma. Tudo isso sem sair de perto de uma fogueira acesa em um sítio na Barbalha, onde nasci e me criei, onde os espíritos de minhas ancestrais ainda moram, onde a mata me chama para conversar. (Isso aconteceu de verdade em um sonho.)

 

(Foto: Antônio Arraes)

 

UM ÍNDIO DESCERÁ

A luz se acendeu na Morada da Jurema há pouco tempo. A primeira jornada xamânica aconteceu ali em abril de 2016 sob os ensinamentos de um grupo de índios da tribo fulni-ô, de Águas Belas (PE). Quem acendeu a luz foi Eduardo Cunha, que chegou com sua família na região para ensinar no curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri. Eduardo é um gaúcho extremamente simpático e altamente na dele. Eu o procurei pela primeira vez pelo Facebook quando vi o post anunciando a primeira jornada na Morada. Queria “dar uma olhada”, ver qual era a do xamanismo. Ele me avisou que, para estar presente no ritual, eu ia ter de tomar ayahuasca também. Tive medo e não fui.

Eduardo e Fernanda, sua esposa, passavam pelo distrito Barro Vermelho por acaso quando viram o terreno. Havia uma placa onde estava escrito “vende-se”. Acabaram comprando, mas sem saber o que iam fazer ali. Em março de 2016, o sítio do casal virou a Morada: “Iniciamos com um curso de xamanismo e, como já fazíamos trabalho com outras medicinas, por questão de intuição, começamos a fazer as jornadas em abril”, contou Eduardo. As “medicinas” usadas na Morada são: rapé, pó de Angico — que é inalado, alterando o estado de consciência, e é usado para cura —; a sananga, um colírio indígena que é aplicado para curar doenças no olho e que no ritual serve para abrir a mente; a ayahuasca, uma bebida feia a partir da combinação da folha de chacrona com o cipó de jabuge e é a mais poderosa das medicinas; e a jurema, uma bebida sagrada típica do Nordeste, encontrada aos montes no Cariri.

Não é à toa que o grupo tenha batizado o espaço xamânico de Morada da Jurema. Eles encontraram vários pés de jurema por lá e sentiram que deveriam se aprofundar mais no estudo e no uso da planta. “O nome do lugar começou a nos provocar, digamos assim. Sentimos que deveríamos trabalhar com a jurema, já que a ancestralidade da região tá ligada com a planta”, ele disse. Eduardo explicou que a jurema é vista como uma praga na cidade, enquanto os índios fulni-ô a veem como protetora da terra. “Ela surge quando o solo tá muito degradado e nasce para renovar a terra. É uma planta consagrada para dar força, dar cura ao guerreiro.”

Somente este ano marquei um encontro pessoalmente com Eduardo. “O que pode dar errado?” — perguntei, bastante apreensivo. “Depende do seu estado espiritual, da quantidade de chá que você tomar”, ele explicou. “Às vezes o tipo de trabalho não casa, a pessoa não se adequa…”, concluiu. Não cheguei a compartilhar com ele o sonho que tive com a minha avó e nem o que sinto quando estou perto da Chapada. Mas quis saber se ele acha que há uma mística só nossa, uma energia diferente no Cariri. “Eu acho que aqui tem uma energia muito especial. O Cariri é um ponto de encontro, e isso vem desde a ancestralidade. E até hoje a região é um lugar de encontro de várias culturas diferentes”, Eduardo respondeu.

Há alguns anos, conversei com Rosiane Limaverde (1964-2017) sobre a expedição dela e de Alemberg Quindins pela Chapada do Araripe, nos anos de 1980, em busca da história oral da nossa região. Eu quis saber se ela — que naquela época era bastante católica — sentiu um choque de crenças ao ter contato com tantas lendas sobre esse chão que nós pisamos. “Claro!”, ela respondeu. “Eu me encontrei com as origens. As origens do homem, do mundo. E aqueles mitos e lendas não são mentira. São outra forma de explicar a realidade.” “É uma boa explicação?”, eu perguntei. Rosiane, que era arqueóloga, não respondeu nem que sim, nem que não. Deu uma resposta melhor: “É uma boa forma de entender o Cariri. É outra forma de entender o Cariri”.

Pensei muito em Rosiane e em Alemberg Quindins na noite em que participei do ritual na Morada da Jurema. Eu tomei a ayahuasca esperando encontrar minha ancestralidade kariri, mas recebi poucas respostas. Em um determinado momento, senti vontade de fumar, fui até Eduardo e perguntei se podia pegar um pouco do tabaco do altar. Algo me disse que o fumo era uma ligação com meus ancestrais. Só dias depois, lendo algo que Rosemberg Cariry escreveu sobre mitologia, foi que eu descobri que a maior divindade para os kariri era Badzé, o deus do fumo. Querendo fazer como Rosiane e Alemberg fizeram quando saíram perambulando por essa Chapada atrás de histórias, atrás de restos de artefatos, atrás do fio da meada, perguntei a Vó Dora como era o nome da avó dela. Era Maria do Amor Divino. Não sei se foi ela que veio me visitar, mas gostei de ter encontrado esse nome.

“Padre Cícero via com esse olhar mitológico”, Rosiane me disse daquela vez. “Ele sabia decifrar essa cultura, esse espírito do lugar que existe no Cariri. A gente também deve procurar decifrar. O Cariri não é um lugar qualquer. Ele tem uma história forte, desde a formação da terra. A Chapada tem uma ligação forte com a origem da vida no planeta. Se mais pessoas vissem o Cariri dessa forma, acho que as coisas estariam mais evoluídas, a cultura estaria mais preservada.”

Foi Rosiane que me contou sobre a grandeza das coisas que duram milênios, como os rabiscos nas pedras e os pedaços de barro enterrados na beira do rio. Mas o rio seca; a pedra se quebra. Só o homem kariri, que é encantado feito a Chapada, porque também é feito de terra, é que dura pra sempre. Rosiane vai durar pra sempre.

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