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A redescoberta de Raimundo Cela

Exposição no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura resgata obras de um dos maiores artistas cearenses do início do século XX.

José Anderson Sandes [jornalista e professor da Universidade Federal do Cariri, em colaboração especial para a Cariri Revista]

No início do breve e tumultuado século XX, a tecnologia avançava, mudava comportamentos e gerava anseios por uma nova vida. Obviamente, tudo isso se refletiu nas artes. Na época, artistas como Anita Malfatti, Di Cavalcante, Tarsila do Amaral, Vicente do Rego, Lasar Segal, Victor Brecheret, Heitor Villa-Lobos, Mário de Andrade e Oswald de Andrade — só para citar alguns – revolucionaram a cena brasileira durante a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. E até hoje estão em cartaz.

No mesmo período, artistas como Eliseu Visconti e Antônio Parreiras, foram esquecidos. Motivo: eram formados pelas academias de Belas Artes. Ora, se no eixo Rio-São Paulo o esquecimento e o preconceito deixaram no limbo uma geração de artistas plásticos, o que dizer de um artista cearense nascido em Sobral e que passou boa parte da sua vida na cidade de Camocim?

Raimundo Cela, mesmo entre os cearenses, é um ilustre desconhecido. Agora, uma exposição resgata esse grande mestre. Raimundo Cela – Um mestre brasileiro está em cartaz até o dia 26 de março no Instituto Dragão do Mar, em Fortaleza, depois de passar pelo Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado (MAB FAAP), em São Paulo, e pelo Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro.

Jangada rolando para o mar, 1941. Óleo sobre tela 89,5 x 130,2 cm

ENGENHARIA E ARTE

Raimundo Cela (1890-1954) nasceu em Sobral, estudou no Liceu do Ceará e cursou engenharia no Rio de Janeiro, um desejo do pai, o espanhol José Mosqueiro Cela, chefe das oficinas da Estrada de Ferro de Sobral. Ao mesmo tempo em que cursava engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, dedicava-se às artes plásticas. Na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, estudou com um dos maiores mestres da pintura do começo do século, Eliseu Visconti.

Em 1920, recebeu o prêmio da Escola Nacional de Belas Artes de uma viagem ao exterior pelo trabalho o Último diálogo de Sócrates (1917). Viajou para Paris, onde complementou seus estudos em Belas Artes e aprofundou seus conhecimentos em gravura em metal. Passou três anos na França, mas com a morte do pai, em 1924, voltou para o Ceará.

 Em Camocim, trabalhou durante dez anos como gerente da Companhia de Força e Luz, uma pequena empresa de iluminação e gás que constituiu com o irmão, Fernando Cela. Porém, nunca deixou a pintura de lado. Em seu ateliê, ao lado da usina, começou seu longo e profícuo trabalho, tendo como tema jangadas e jangadeiros do Ceará. Como o baiano Dorival Caymmi na música, o cearense Raimundo Cela pintou a força do jangadeiro do litoral cearense em desenhos, óleos e gravuras.

Cela jamais deixou-se influenciar pelo espírito modernista da época. Seguiu trilhando por um profundo compromisso com as teorias de seus mestres. Para seguir seu destino e vocação, abandonou a engenharia e mudou-se de Camocim para o Rio de Janeiro, onde foi também professor na Escola Nacional de Belas Artes. O academicismo foi maior marca dos seus trabalhos, mas, como aponta o crítico Cláudio Valério, sofreu “verdadeira transfiguração do aprendizado acadêmico”.

Marcos Valério assinala vários movimentos na obra de Cela, muitos que o aproximam da tradição clássica, com equilíbrio racional —  a tentativa de imitar as coisas representadas —, mas também o distanciam das Belas Artes através de “movimento, agilidade e graça”.

Para o crítico, o grupo de trabalhadores do mar de Cela carrega uma beleza melancólica, apesar das luzes e cores. “O olhar é atraído por um detalhe: a cabeça, as costas, as pernas dos jangadeiros, sem desprezar o conjunto em que a harmonia dos movimentos, dos gestos e das formas impactam pela naturalidade com que nos capturam. Seus quadros nos revelam, de uma maneira muito sutil, sem grandiloquência ou pieguice, a poesia que inspira a visão dos pescadores e de suas jangadas nas praias do Ceará”, escreve o crítico no catálogo da exposição.

Nesta exposição, a grandeza do artista cearense pode ser observada em muitas de suas fases, ao abarcar sua trajetória a partir de momentos-chave: o prêmio da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, a viagem à Europa, o retorno a Camocim, a mudança para Fortaleza e a volta do Rio de Janeiro. Desenhos, gravuras, aquarelas e pinturas de todas essas fases permitem compreender o processo criativo do artista.

Beleza melancólica: Raimundo Cela pintou a força do jangadeiro do litoral cearense em desenhos, óleos e gravuras.

DESCASO NO CEARÁ

Desconhecido pela maior parte dos brasileiros, Cela ganha, com essa exposição, uma nova dimensão, mesmo entre os cearenses. Muitas de suas obras estavam espalhadas em repartições públicas do estado ou no próprio Palácio da Abolição, mas sem que se tivesse os cuidados necessários para a sua preservação. Não foram poucas as denúncias do descaso do poder público cearense em relação às obras de Raimundo Cela, que sucumbiam aos cupins e goteiras das galerias mantidas pelo Estado.

Foi o caso da Casa de Cultura Raimundo Cela, hoje extinta, que guardava um importante acervo do artista cearense. Além dos seus trabalhos, encontravam-se também quadros de Aldemir Martins, Chico da Silva e Antônio Bandeira. Alguns foram dados por desaparecidos. 110 obras, porém, foram recuperadas, entre elas um Cela totalmente deteriorado — A catequese —, agora recuperado para compor a atual exposição.

A curadora da exposição, Denise Mattar, reuniu obras do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, do Instituto Dragão do Mar, do Palácio da Abolição, do Palácio Iracema, em Fortaleza, e do próprio Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, além de 15 coleções particulares de Fortaleza, Rio e São Paulo. O projeto realizou também o restauro de quatro obras que estão sendo exibidas ao público pela primeira vez: Rendeira (1931, óleo sobre madeira, 32 x 40,5 cm); Cabeça de vaqueiro (1931, óleo sobre madeira, 38 x 46 cm), Cabeça de jangadeiro (1933, óleo sobre madeira, 38 x 46 cm) e Catequese (Óleo sobre tela, 190 x 200 cm).

Raimundo Cela, em meio às mudanças do início do século XX e do radicalismo dos modernistas de 1922, ficou e permaneceu durante décadas no limbo. Agora a exposição Raimundo Cela – Um mestre brasileiro revela a obra de um artista singular que, com sua apurada técnica e sensibilidade, consagrou o símbolo maior do Ceará: jangadas, jangadeiros e a intensa luz de nossas praias.

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