Revista, Tradição 0

A marqueteira de Santo Antônio

Se Santo Antônio precisasse contratar uma agência de marketing para intermediar seus serviços junto aos devotos que recorrem ao padroeiro dos solitários, Socorro Luna com certeza teria a vaga. A advogada barbalhense dá uma mão ao santo na busca pelo amor alheio, embora prefira continuar solteira.

O mais próximo que Socorro Luna esteve do altar foi no noivado com um pernambucano de Custódia por volta dos anos 80 – ela diz já ter esquecido o nome do pretendente e a época do caso como desculpa para preservá-lo. Com o fim do relacionamento, ela voltou à solteirice de sempre e nela permaneceu até 1998, ano em que a TV Band passava por Barbalha gravando um documentário sobre a Festa de Santo Antônio, a tradicional celebração ao padroeiro do município, recentemente registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Livro das Celebrações. A produção da emissora foi à Prefeitura Municipal buscar nomes de mulheres bem-sucedidas, de meia idade, em paz com a condição de solteiras e dispostas a dar uma entrevista. Sugerido o nome da advogada, a equipe de reportagem bateu à sua porta na Rua do Vídéo. “Coroa já virou ‘mulher bem-sucedida, foi?’”, ela perguntou, adorando o convite.

O documentário desagradou boa parte dos barbalhenses, que não gostaram de ver “tanta gente feia e bêbada” nas filmagens, como Socorro lembra. “Bem, é a verdade!”, ela diz, sem lamentar nem um pouco. Quem também gostou de vê-la na TV foi um certo paulista que se apaixonou à primeira vista e fez de tudo para entrar em contato com a solteirona de Barbalha. Não demorou muito para ele conseguir conhecê-la e fazer Socorro mudar o status de relacionamento para: namorando. O nome ela também não diz, mas garante que era “um coroa culto, elegante e trilíngue” que, de tão gentleman, odiava ver Socorro bebendo cerveja e contando piada em mesa de bar. Ela então tomou um porre homérico para desagradá-lo pela última vez e provocar o fim do namoro. Guarda remorso por ter perdido aquele pretendente? “Eu?”, ela pergunta, indignada com a sugestão de que um homem lhe faz falta e, em seguida, joga a cabeça para trás e dá um trago no Dunhill Nanocut.

A única coisa que Socorro guarda do relacionamento com o paulista conservador é um acervo de 1.500 livros que ele mandou em uma só remessa para terem assunto quando conversassem. São Camões e Dostoievski com dedicatórias imensas e piegas. Entre os livros expostos nas sete fileiras da estante na sala ao lado da cozinha, o mais novo é O Código da Vinci, o romance best-seller de Dan Brown. Ao lado dos seus óculos de grau está Santo Antônio: de Lisboa, de Pádua e de todo o mundo, de José da Silva Martins. O primeiro parágrafo diz: “Nasceu Santo Antônio a 15 de agosto de 1195, numa casa pegada à Sé de Lisboa. Recebe o nome Fernando e o sobrenome Martins”.

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O CAMINHO DA TRADIÇÃO

Foi em 1928 a primeira vez em que passearam por Barbalha carregando um mastro para erguê-lo em frente à Igreja da Matriz de Santo Antônio. A homenagem ao padroeiro da cidade foi ganhando proporções até virar uma trezena (treze dias de reza e festejos) com uma quermesse na antiga praça ao lado da estação de trem, onde a Festa continuou até 1989, ano em que os shows, o parque de diversões e a quermesse foram transferidos para o Parque Tasso Jereissati, durante a gestão do prefeito Rommel Feijó. “Minha única participação na Festa nesse tempo era me embriagar”, Socorro diz, recordando o movimento pelo retorno da quermesse para o centro da cidade, processo que se estendeu por toda a década de 90, período em que a Festa de Santo Antônio se limitava ao carregamento do pau em um domingo, seguido de treze noites de forró no Parque.

A quermesse da Paróquia da Igreja da Matriz hoje é paralela ao evento oficial do município no Parque da Cidade e tem um palco próprio com atrações diárias. O Largo da Matriz abriga durante a trezena a festa com um parque de diversões pequeno, carrinho de pipoca e algodão doce, leilão de galinha e barracas de comidas típicas, como numa cidade do interior da década de 50. A ideia de criar esse pequeno evento durante a Festa partiu de Josafá Magalhães, advogado e militante petista, que mobilizou outros barbalhenses, também incomodados com o fim da tradição após a passagem da Estação para o Parque. Socorro relembra: “Era um movimento muito tímido, muito pálido. Ninguém acreditava que aquilo ia dar certo”.

Nada arrependido por ter colocado uma vírgula na história da cultura de Barbalha, Josafá iniciou uma tradição do zero. “Começou bem devagarinho, a gente só juntava umas mesas na Rua da Matriz, tentando fazer a quermesse voltar, depois as pessoas iam embora, e a gente tinha que limpar tudo, varrer a rua, lavar prato, juntar mesa… Eu não fazia nada, só bebia e Josafá brigava comigo gritando: larga este copo“, Socorro conta, às gaitadas. No início dos anos 2000, quando a quermesse ganhou corpo, Josafá exigiu que Socorro assumisse o comando da noite do sábado que precede o dia do Pau da Bandeira. “Eu gritei: Deeeus me livre! A gente pegou uma briga maior do mundo e eu acabei aceitando”, ela relembra, “Mas eu avisei: já que eu vou ser obrigada a fazer, vai ser uma coisa diferente”.

“Primeiro eram só três mesinhas, depois inventaram de colocar uma barraquinha pra a gente”, conta Rosa Freitas em uma tarde de domingo, sentada ao lado do seu gato na entrada da casa, onde se leem dois avisos anti-evangélicos, que alertam: “sou feliz por ser católico” e “prezado amigo, nesta casa somos todos católicos”. Rosa foi uma das single ladies a ajudar Socorro nos primeiros anos da Noite das Solteironas, que começou em 2002 e desde então ocorre na noite do sábado antes do dia do Pau da Bandeira. A professora aposentada se afastou das atividades na Festa em 2007 para cuidar da mãe, em uma casa ao lado do Largo da Matriz.

Josafá Magalhães morreu em 2003, vítima de um ataque fulminante no miocárdio. Socorro, que tinha ouvido o amigo dizer várias vezes que não queria choro nem vela em seu funeral, preparou uma festa maior do que o próprio Pau da Bandeira para acompanhar o caixão no trajeto da Igreja da Matriz ao cemitério. Ela encarregou-se de providenciar grupos de Reisado e Maneiro-Pau, a Orquestra Filarmônica do município e bandas com zabumba, sanfona e pífano para fazer o cortejo em homenagem a Josafá.

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SOLTEIRAS UNIDAS

Luzi de Souza morava em Recife desde 1974 e não fazia questão de voltar à cidade na época da Festa, mas passava férias em Barbalha em maio de 2006, visitando os pais, quando encontrou Socorro Luna sozinha, preocupada em organizar a Noite das Solteironas. Era o penúltimo ano de Rosa Freitas no grupo das Solteironas e ela já não ajudava na produção da festa, apenas cuidava das finanças.

Funcionária da Pastoral do Idoso de Recife, Luzi resolveu, naquele mesmo ano, que iria ficar de vez em Barbalha, cuidando dos pais, e assumiu a responsabilidade que era de Rosa. “Sempre falam em As Solteironas, mas só são duas”, ela ri. Atualmente, apenas as duas solteironas comandam a Noite. É Luzi quem pesquisa as características da árvore do ano assim que a espécie é anunciada. Quando é ano de aroeira, como em 2010, as sementes da árvore também servem para fazer terços de salve-rainhas. A escolhida no ano passado foi um Angico de 22 metros de comprimento e que pesava duas toneladas – a planta é medicinal e o chá de sua casca serve para amenizar uma tabela de inflamações e alergias.

O Chá Casamenteiro é só um dos sete itens que circulam na Noite das Solteironas. Pretende-se milagreiro e promete um marido em até um ano, assim como o Terço Contra Solteirice, a Essência do Amor (sabonete líquido para banho), as Gotas Milagrosas (um xarope), o Kit Milagre, um sabonete em barra e um licor com pouco teor alcoólico e que, de quebra, ainda serve como expectorante.

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SANTO ANTÔNIO É DE TODOS

Em 04 de junho do ano passado, último dia da Festa de Santo Antônio, Socorro fez sua segunda participação no Encontro com Fátima Bernardes, programa matinal da TV Globo. No ano anterior, quando foi convidada a ir até o Projac, no Rio de Janeiro, já era sua terceira visita aos cenários globais. Em 2009 ela tomou café da manhã com Ana Maria Braga e ensinou a apresentadora a fazer o chá da casca do pau e, em 2001, sentou-se ao lado de Jô Soares. Entrevistada após Luiza Brunet, ela tentava comentar sobre os aspectos culturais da Festa com o humorista e se desviar da sequência de piadas com duplo sentido que ele fazia com o Pau. Quando falou que trabalhava na 1ª vara, Jô rapidamente a interrompeu: “Ah, então quer dizer que você é a mulher da vara e do pau?”.

Formada em Direito na Universidade Regional do Cariri, Socorro trabalhou de 1989 a 2006 na 1ª Vara do Fórum de Juazeiro do Norte, depois passou a trabalhar como advogada do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Crea) da cidade, resolvendo geralmente querelas referentes a pensão alimentícia, ações de interdição e acordo de divórcio. “Eu separo e caso”, ela brinca. No final do ano passado, Socorro abriu um escritório de advocacia com dois sobrinhos jovens, o Luna & Ribeiro Advogados Associados.

Não foi apenas no Direito que Socorro mudou sua forma de trabalhar. Desde o ano passado a Noite das Solteironas não acontece mais no Largo da Matriz, mas em frente à sua casa. Já fazia tempo que a relação com a paróquia vinha se desgastando, então Socorro abandonou a quermesse antes que fosse necessário abandonar a Igreja. Luzi continua fazendo as simpatias, que são expostas à venda apenas na grande Noite, mas continuam sendo produzidas durante o ano todo, já que as encomendas não param. Em 31 de maio passado, Socorro faz um discurso já um tanto alta, depois de dar entrevistas e antes de abrir espaço para as atrações musicais da noite. Democratizando a festa e as simpatias, ela finalizou sua fala bradando: “Essa noite é para mulher que quer arranjar marido, homem que quer arranjar marido, mulher que quer arranjar esposa… Porque Santo Antônio não tem preconceito!”. Se ele não for mesmo mente aberta, Socorro pode ter perdido seu emprego de marqueteira do santo.

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