Arte e Cultura

A história de Maria do “Forró dos Véi” de Barbalha

Por Redação Cariri • 14 de fevereiro de 2018

É comum em cidades pequenas da região algumas pessoas terem seu segundo nome substituído pelo nome do seu ofício ou do pai, da mãe, do irmão, e ainda, como no caso de Maria Rodrigues, pelo do marido. Por isso que ela era chamada Maria de Raimundo até o dia em que a sua participação no forró dominical a fez conhecida como Maria do Forró. Ela ainda prefere ser chamada com o nome do marido junto ao dela, mas é inevitável não associa-la à festa que ela promove, o Forró dos Véi.

Frequentadora de um grupo de amigos da Vila Santo Antônio, há 22 anos dona Maria assumiu a liderança da turma e passou a organizar passeios à zona rural do município ou à cidades próximas que oferecessem uma tarde de lazer e música para velhinhos ainda dispostos a dançar. Depois de muito viajar, ela pensou em promover o forró deles no Parque da Cidade. Maria viu no forró com os seus amigos uma maneira de esquecer uma sequência de acontecimentos tristes – o falecimento de três dos seus 7 filhos.

O pai de Maria foi o precursor da cura pela dança. “Era pra ele ter morrido há mais de dez anos”, esclareceu o médico ao diagnosticar uma doença grave de coração e acrescentou: “Foi o forró que salvou o senhor, seu Manoel!”, Maria conta a história imitando o doutor enquanto gesticula com os braço no ar e jurando que foi o som da sanfona que deu ao pai mais uns anos na terra. Com a voz embargada comenta que não é fácil perder um filho, muito menos três. “O forró também me salvou, sabia? Era pra eu ter enlouquecido”, afirma.

 

 

Em 2008, a Prefeitura Municipal pediu de volta a área onde os velhinhos dançavam com a justificativa de efetuar uma reforma. Ciente de que o show nunca pode parar, Maria prontamente comprou um galpão de 15 x 30 m e chamou os amigos para inaugurar o Clube da Melhor Idade Adalva Maria, em homenagem à sua mãe, de quem ela diz ter herdado a vontade incansável de trabalhar. Quando a reforma do Parque ficou pronta em 2012, a festa pôde voltar ao lugar de sempre, mas ela teria de alternar as tardes de forró com outra pessoa, utilizando a barraca quinzenalmente. Sem problemas, já que o forró se abriga no Clube com endereço fixo, onde ela faz o forró nos domingos em que não está no Parque.

Para lá de disposta, ela acorda às 5h da manhã para montar a barraca e organizar o espaço onde homens e mulheres da terceira idade vão arrastar suas sandálias de uma às seis da tarde. Apesar de brincalhona, Maria impõe suas condições no terreiro: não quer ver idoso nenhum tomando bebida alcoólica quente e nem mulher usando roupa indecente. Cansada de alertar contra os dois riscos do forró, a cachaça e o rabo de saia, Maria até já recebeu um agradecimento: “Fiz um se comportar bem direitinho. O filho dele me viu na rua e veio me dizer: ‘Maria, você fez papai se comportar! Só você que conseguiu botar ele nos eixos’”, ela ri.

 

(Fotos: Rafael Vilarouca)

 

Maria recebe ajuda do marido e de duas filhas para fazer a festa acontecer, mas é responsabilidade dela contratar a banda – ou “o tocador”, como ela diz – e devolver o espaço do Parque limpo do jeito que encontrou. As despesas são pagas com o dinheiro que ganha da cerveja e dos lanches que vende. O lucro, no fim das contas, é quase nenhum. Maria faz porque gosta e com muita disposição.

Conhecedora dos gostos musicais da terceira idade, ela não mede esforços para trazer os tocadores que eles mais gostam. “Sanfoneiro eles gostam, mas já teclado não”, diz e depois baixa um pouco a voz para confessar que, apesar de ser a Maria do Forró, ela só dança bolero.

 

(Fotos: Rafael Vilarouca)

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