_DSC0046
Reportagens, Tradição 0

A fórmula secreta do Bálsamo da Vida

Por Raquel Arraes
Fotos: Rafael Vilarouca

Em 1913, Juazeiro do Norte não era mais que uma vila com o título de cidade. Algumas centenas de casas, um tanto de igrejas, um padre aprendendo a ser prefeito. Médico nenhum. Para quem adoecesse havia apenas um destino: a Farmácia dos Pobres de seu José Geraldo da Cruz. Seu Geraldo, como todos bem sabiam, não era formado em medicina, enfermagem ou qualquer coisa que o valha. Em seu cabedal, apenas a experiência prática de quem passou anos a fio atrás de um balcão. Mas isso não espantava a freguesia. Muito pelo contrário. Geraldo Cruz por ali era o único médico conhecido, e foi confiando nessa versatilidade que em 31 de agosto de 1913 inaugurou a Farmácia dos Pobres, estabelecimento que se tornaria uma referência para a medicina popular de todo o Nordeste.

Assim que abriu, a farmácia passou a ser o endereço certo para a cura de todo tipo de enfermidade: machucados, cortes, ferimentos graves, gripe, dor de dente. “Meu pai era o que chamavam de farmacêutico prático, aprendeu na lida do dia a dia, então as pessoas chegavam aqui buscando por ajuda e ele limpava e cuidava dos ferimentos na calçada mesmo. Ele até sabia animar o povo. Dizia sempre: ‘Quem entra aqui, não morre mais!’”, sorri o filho de seu Geraldo, Carlos Cruz.

A presteza do farmacêutico acabou chamando a atenção de um cliente ilustre, o Pe. Cícero Romão Batista. O padrinho costumava requisitar Geraldo para aplicar injeções e fazer curativos. “O Pe. Cícero notou que ele tinha uma tendência para a medicina e disse que se ele quisesse custeava seus estudos na Alemanha”, conta Carlos Cruz. A oferta foi recusada, pois já nessa época mulher e filhos eram merecedores de cuidados e atenção.

“Naqueles tempos, os farmacêuticos usavam fórmulas e meu pai já conhecia muitas de tanto experimentar sozinho as substâncias”, lembra Carlos Cruz. Curioso, Geraldo fazia suas experimentações e criava diversos remédios e comprimidos para tosse e verme, principais moléstias da população. Anos depois, ele conheceria um químico francês de passagem pelo Cariri. Na bagagem do viajante, diversas e novas fórmulas que seriam repassadas para Geraldo.

Até que em 1920 as experiências renderiam frutos e Geraldo criaria o famoso unguento conhecido como Bálsamo da Vida, seu remédio mais ilustre – a ponto de sua farmácia e seu nome entrarem para a história de Juazeiro do Norte, perpetuando-se por um século.

Não são poucos os que atribuem ao Bálsamo da Vida um poder miraculoso, sua eficácia sarando males muitos e diversos. Dessa fama de milagreiro, surgiu a lenda de que sua fórmula era um segredo guardado a sete chaves. Mas o caso é que o bálsamo é um remédio fitoterápico, ou seja, em sua fórmula atuam substâncias derivadas de plantas reconhecidas pela eficácia, usadas há milhares de anos no tratamento de doenças. A mistura complexa de substâncias faz com que, na maioria dos casos, o princípio ativo, esse sim, seja desconhecido.

Basta ler a bula: Matricária, Genciana, Jaborandi, Carnaúba, Casca de Laranja, Caramelo e Água destilada. A simplicidade salta aos olhos, o que certifica a engenhosidade do criador. “Eu não tenho a concepção de que o bálsamo é milagreiro. Ele é eficaz para os problemas em que atua, como os gástricos. Vem se perpetuando porque o seu efeito é bom para aquilo a que se destina”, informa Ana Paula Cruz, neta do criador.

Hoje responsável pela fórmula do bálsamo, Ana Paula lembra que a cajuína São Geraldo, refrigerante que é uma verdadeira iguaria apreciada por tantos caririenses, também foi criação de Geraldo Cruz. “Meu avô era um inventor de primeira, inventou até perfume, fora outros remédios. A cajuína foi só uma dessas muitas invenções. Inclusive, é São Geraldo devido ao nome dele”, pontua.

Então, por que é que depois de tanta criação feita por Geraldo Cruz, a Farmácia dos Pobres se absteve à venda de outros medicamentos, restando apenas o Bálsamo da Vida? “Acontece que meu pai foi prefeito de Juazeiro duas vezes. Na primeira vez, todo mundo que chegava até ele pedindo algum remédio ele mandava buscar na farmácia. Quando ele ganhou, me passou a farmácia, e quando eu vi, não tínhamos mais nada! Ele havia distribuído todo o estoque!”, lembra Carlos Cruz.

Após se tornar prefeito de Juazeiro do Norte, em 1930, Geraldo Cruz não mais se interessaria pelos negócios. O filho, sem nenhuma vocação para a área, continuou com a farmácia apostando apenas na venda do bálsamo. “Eu nunca gostei muito dessa área, então, não sabia as fórmulas como meu pai sabia. A farmácia virou meu ganha-pão. O que eu fiz foi descentralizar a venda do bálsamo passando a vender também em outras drogarias de Juazeiro, Crato e Barbalha. Priorizei o bálsamo porque era o que mais saía e até hoje é o que nós temos à venda”, conta Carlos.

Carlos Cruz, o herdeiro da fórmula

Carlos Cruz, o herdeiro da fórmula

NÃO PODE FALTAR. SERVE PRA TUDO!

O ziguezague intenso de veículos e pedestres não tira a calma e placidez de seu José Antônio, que há 18 anos atende no balcão da Farmácia dos Pobres. Lá fora, a balbúrdia de uma cidade em crescimento que botou abaixo seus prédios históricos para dar lugar ao nem sempre admirável mundo novo. Dentro da farmácia, o que se vê são os ladrilhos hidráulicos colorindo o chão, o balcão esculpido em madeira e os impressionantes armários que vão do teto ao piso com lindos adornos, tudo em madeira centenária.

Seu José Antônio, ele também um apreciador do Bálsamo da Vida, fala que para os clientes que ali chegam, não há limites para o poder curativo do remédio. Já ouviu de um tudo: que o bálsamo cura indigestões, enjoos, mal-estar e cortes. “Cada um que chega aqui, narra uma história diferente”, comenta.

Em média, 20 frascos são vendidos diariamente. Tem para todos os tipos de bolso. As embalagens de 100 ml custam R$ 9,00 e as de 250 ml, R$ 15,00. A garrafa contendo um litro sai por R$ 28,00. “A garrafa de um litro é a que mais sai”, enfatiza Antônio. Em dias normais, a farmácia é uma tranquilidade, mas em tempos de romaria o extenso balcão de madeira é pequeno para tanta demanda. “Isso aqui fica uma loucura. Vendemos o estoque inteiro, eu quase não dou conta de tanto pedido”, destaca o antigo funcionário.

Cliente assíduo da farmácia, José Ribamar de Souza é um apreciador inveterado do Bálsamo da Vida. Pegou gosto de tomar o santo remédio com a mãe, que dizia que o unguento era especial. “Eu tomo três vezes no dia, só não tomo toda hora porque fica caro”, sorri matreiro. Ribamar costuma comprar de três a quatro frascos por semana. Para ele, como o bálsamo não há igual. “Ele me dá disposição, espanta o enjoo e serve para praticamente tudo!”.

Também dona Judite de Lima faz do Bálsamo da Vida um companheiro inseparável. “Meus pais sempre compravam. Diziam que o bálsamo é um ótimo remédio e que não pode faltar numa casa. Então eu não deixo faltar na minha”, garante. Para ela o bálsamo é um milagreiro na cura de enjoos, desmaios, cólicas e cortes. “Eu coloco num copo e tomo puro, sem misturar na água”, explica ela, para quem o maior feito do remédio foi salvá-la de um desmaio iminente. Tendo passado mal, voltou a si após tomar praticamente um frasco da beberagem. “É por isso que estou com 64 anos e não deixo de tomar. Já estou acostumando minhas netinhas no bálsamo. Não tem melhor que ele!”.

O prédio onde funciona a Farmácia dos Pobres é hoje o mais antigo da cidade, ainda preservado.

O prédio onde funciona a Farmácia dos Pobres é hoje o mais antigo da cidade, ainda preservado.

VEJA COMO ATUA CADA SUBSTÂNCIA

Matricária: Planta medicinal utilizada para tratar a enxaqueca e as dores de cabeça.

Genciana: Planta medicinal com efeito amargo e digestivo, utilizada contra diversos distúrbios digestivos.

Jaborandi: O jaborandi é utilizado principalmente em colírios para o tratamento de glaucoma, mas em receitas caseiras é muito usado para baixar febre, problemas capilares e laringites.

Carnaúba: As raízes têm uso medicinal como eficiente diurético.

Casca de Laranja: Combate as infecções, ajuda na eliminação das toxinas do álcool, é diurética, anti-escorbútica, tônica, digestiva e ligeiramente laxativa.

Caramelo: Atua como corante.

Sugestões de Leitura