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Colunas, Crônicas 0

A esperança ocupa o Cariri

Os tijolos outrora cobertos com uma camada de verniz estavam escondidos por trás de uma horrorosa tinta amarela. Logo me ocorreu que a primeira ocupação daquela escola tinha passado batida. O crime estético da pintura dos tijolinhos tinha ficado impune. Inadmissível!

Outros crimes da mesma natureza da profanação dos tijolinhos podiam ser vistos no prédio: as colunas espelhadas e as paisagens praianas dentro das salas que impedem a visão do que está fora da sala de aula na minha opinião são os mais graves.

Meu instinto nostálgico verificou rapidamente o prédio que guarda minhas lembranças juvenis mais caras. Foi lá que pela primeira vez na vida eu senti orgulho de mim mesma, a experiência do meu primeiro de muitos amores irreais, amores reais, amor próprio.

Eu lembro daquele prédio como o abrigo da menina insegura que eu fui, mas lembro também que foi naquele espaço que eu fui convencida de que a educação é uma arma tão quente quanto a felicidade.

O mural na entrada ainda estava lá. Grata lembrança. Esse mesmo mural foi minha responsabilidade por um período, eu recortava letrinhas de papel, desenhava, coloria. Por bastante tempo ele foi a maior página na qual eu podia me expressar, a mais aberta. Naquele sábado o mural tinha uma marcação importantíssima: #ocupaçõesnoceará.

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Fomos encaminhados por uma moça agitada até a lateral da escola. As cadeiras azuis estavam em formação de círculo. Eram poucas para a quantidade de gente que participaria da roda de conversa. O tema? Mulher e política! Um espaço misto que foi ganhando mais visitantes ao longo da tarde.

Foi uma explosão! Logo na roda de apresentação a idade das meninas e meninos me surpreendeu. 14 anos, acreditam? 14 anos e ocupando de maneira organizada e responsável uma escola pública, exigindo melhorias, lutando lado a lado com professores por educação.

Quando enfim começaram as falas, a surpresa foi ainda maior – melhor! As meninas falavam da dificuldade de na condição de mulher permanecer naquele espaço, problematizaram a divisão de tarefas, dividiram experiências de enfrentamento do machismo em casa, mostraram capacidade de perceber a força de mães solteiras e guerreiras e a cada palavra que pronunciavam invadiam a mente e coração dos que ali estavam presentes com questões.

Tenho aprendido que muito mais importante do que as respostas são as perguntas, e por isso cada dúvida apresentada, cada certeza carregada de perguntas invisíveis me enchiam de muitas outras questões. No fim da tarde eu estava transbordando de inquietações. Veio o Piquenique Feminista, vieram as discussões de volta pra casa e veio a certeza de que “lugar de mulher é onde ela quiser”.


Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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