Economia e Negócios

A criatividade como melhor capital

Pão de abóbora aromatizado com manjericão. Licor de jabuticaba. Geleia de cambuí. Coxinha de banana com carne de sol e melaço de rapadura. Torta de abóbora, com queijo coalho, carne seca e tomate cereja, perfumada de hortelã. Tudo orgânico, vindo da roça, sem corante, sem conservante, feitinho no dia. E ao mostrar as trufas de Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 30 de novembro de 2015

Pão de abóbora aromatizado com manjericão. Licor de jabuticaba. Geleia de cambuí. Coxinha de banana com carne de sol e melaço de rapadura. Torta de abóbora, com queijo coalho, carne seca e tomate cereja, perfumada de hortelã. Tudo orgânico, vindo da roça, sem corante, sem conservante, feitinho no dia. E ao mostrar as trufas de chocolate com recheios variados, Francisca Sales da Silva, a Têca, autora dessas delícias, comenta: ““Isso quando explode na boca, você nem queira saber”. Mas dá para imaginar: tem trufa de maracujá com pimenta, banana com gengibre, geleia de caipirinha…

As iguarias criativas de Têca são acondicionadas em embalagens reutilizáveis nas quais ela insere detalhes decorativos de palha de bananeira. Depois, é só esperar, porque freguesia não falta. “São coisas assim que as pessoas estão querendo comer hoje”, comemora a chef-artesã. Apesar da qualidade dos produtos, eles não estão em lojas finas nem em pontos de venda dos shoppings. Têca trabalha onde mora, numa casa simples, com número discreto na porta. Faz seus bolos, tortas e pães num fogão comum, atendendo as encomendas por telefone e Facebook. Mas nada de delivery: o próprio freguês que se vire para pegar o petisco.

Com boa mão para a cozinha e o artesanato, ela integra uma rede informal de pequenos empreendedores criativos que fazem toda a diferença na oferta de artigos especiais. Filha de agricultores, nasceu no Exu (PE), morou um tempo no Crato e, depois de casada, mudou-se para um terreno ao pé da serra, em Barbalha, onde descobriu sua vocação.  No sítio Coité, por não gostar de ver o desperdício de folhas e frutos, começou a trabalhar com um produto natural que “o povo não dava valor”: a fibra da bananeira.

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FIBRA DE ARTE

Fez primeiramente um curso simples no Serviço de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), para aprender a lidar com a fibra rústica, e depois partiu para oficinas mais avançadas, descobrindo novas maneiras de beneficiamento. “Ficavam me perguntando pra quê tanta fibra, o que eu ia fazer com aquilo, me chamavam de maluca”, recorda. Mas persistência sempre foi uma de suas qualidades. Logo Têca estava fazendo bolsas, que, para surpresa de todos, venderam bem em João Pessoa, onde ela foi participar de uma feira.

Depois disso, não parou mais de viajar para vender sua arte. Foi muitas vezes a João Pessoa, por conta própria, levando suas criações de palha: bolsas (de mão e a tiracolo), mochilas, carteiras. Hoje ela faz de tudo, mas o que sai mais são os utensílios decorativos, como pequenos baús. A fibra, ela conta, é de banana prata, legitima e orgânica. “Fica bem branquinha, uma beleza. Bananeira a gente sabe: o fio só dá um cacho. Cortou, pronto. Então a gente pega o tronco e desmembra. Ele é cheio de ‘capinhas’. Dá até quatro diferentes fibras, que servem para diferentes peças depois do beneficiamento”, explica Têca, didática.

Na verdade, o tronco da bananeira é um pseucaule formado pela sobreposição das bainhas das folhas. Esse material é, normalmente, desperdiçado, já que as pessoas só consomem a banana. Porém, ele se presta aos mais diversos usos. Além das finalidades têxteis, hoje já há estudos sobre o seu beneficiamento como papel e palmito. No caso das fibras, algumas são mais largas, outras mais finas, umas são delicadas, outras mais fortes. Cada tipo se presta a um uso. “Essa luminária já tem oito anos e a fibra não mudou, continua bonita”, declara Têca, mostrando um trabalho seu.

 

ELO DE SABERES  

Ela já foi professora primária, mas ganhava tão pouco que, comparativamente, hoje tira em poucos dias o que antes tirava em um mês. Mesmo longe das salas de aula, nunca perdeu o gosto pela arte de partilhar conhecimentos. Vendo as siriguelas, goiabas, mangas e cajus se estragando nas proximidades do seu terreno, resolveu ensinar as várias formas de aproveitamento para as mulheres da região. “Não sabiam fazer um doce. Quando tinham dinheiro corriam no mercado para comprar ‘pó da morte’, que é como eu chamo esses sucos de envelope. Macaxeira, só comiam cozida”, recorda Têca, que até hoje participa e é vice-presidente da Associação do Sítio Coité, que congrega agricultores, artesãos e pequenos produtores.

A comunidade era muito pobre, mas depois do trabalho da associação os moradores foram criando novas formas de sobrevivência. Trabalham com os derivados da mandioca, fornecem popa de fruta e produtos como petas e sequilhos para vários pontos, inclusive escolas. Têca ganhou o Prêmio Sabrae Mulher de Negócios em 2009, pelo trabalho junto às mulheres do Sítio Coité. Na época, criavam petiscos saudáveis, que chamavam de “ecolanches”, mas a logística de transporte da mercadoria sempre foi complicada. Hoje, Têca considera que se o pequeno produtor não morar perto da zona de escoamento, as vendas ficam muito prejudicadas.

Ela mesma vive no Crato, onde é mais fácil vender seus produtos, mas conta com a ajuda do filho Samuel, que envia os insumos do sítio. Com perícia e paciência, a matéria-prima se transforma em bolo de caju, de banana, de maçã, de macaxeira – o quilo sai por R$ 10,00 ou R$ 15,00. As geleias e compotas são vendidas em potes de R$ 6,00 a R$ 12,00. O pão de macaxeira, criação que mais alegra a cozinheira, custa R$ 10,00. “É muito bom!”, ela garante. Os licores são um “pecado” à parte. Tem de genipapo, jabuticaba, abacaxi, siriguela, cajá, caju, cambuí, maracujá de boi, maracujá peroba, tamarindo, canela, alecrim, jabuticaba, macaúba, jaca, gengibre, pitanga graviola. Só depende da época, “Vai tendo a fruta e eu vou tendo o licor”, resume Têca, para quem o importante é usar a criatividade e evitar o desperdício.

Quando falta alguma coisa no sítio, ela compra na feira orgânica do Crato, que acontece toda sexta-feira. O público é variado As receitas são criações próprias, recriações inspiradas em outras receitas ou novidades aprendidas em cursos. Tem também os segredos de família, como no caso dos licores. “Antigamente se fazia muito, depois foi se perdendo, mas nós resgatamos e hoje a clientela é maravilhosa”. Para completar, Têca tem uma filha nutricionista que, mesmo terminando o mestrado em São Paulo, orienta a mãe sobre o que é mais saudável, o que dá certo ou não, as melhores opções gastronômicas e substituições de alimentos.

 

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Francisca Sales da Silva, a Têca: Da fibra da bananeira aos sabores da roça

VOCAÇÃO EMPREENDEDORA

Embora mais dedicada à gastronomia, Têca não largou o artesanato com fibra de bananeira. Diz que percebe claramente uma mudança de aceitação do público em relação aos produtos feitos à mão: “Hoje o artesanato está mais visto, embora ainda persista a tendência de valorização maior por pessoas de fora”. Ela participa do projeto Cariri Criativo e nota que a procura está cada vez maior.  Já andou por Mauriti, Missão Velha, Quixabinha, Barro e outros distritos e municípios, dando cursos de artesanato por Ongs e pela Ceart.

Também vive engajada em feiras e eventos da agricultura familiar e da economia solidária.  “Trabalhando com isso, na região do Cariri, a gente acaba se conhecendo”. Explica que a maior feira do gênero é a Exproaf, que acontece no início de junho. E tem planos para o sítio: abrir mais espaço para o orgânico, fazer parcerias com a Universidade, oferecer café da manhã da roça para visitantes.

“Hoje, mesmo as mulheres agricultoras são empreendedoras. Dá para trabalhar com horticultura, fazer um canteiro, vender os produtos no mercado e viver bem. Antigamente era impossível. Meu pai trabalhava o dia inteiro na roça e mal tinha dinheiro para comprar uma roupa prum filho”, diz Têca. Para quem se interessar, um único conselho: “Nunca deixe de aprender. A cada encontro, a cada curso, a cada oficina, a gente já volta com uma outra qualidade de trabalho. Por isso, é importante fazer sempre”.

 

BOAS IDEIAS DE FAMÍLIA

Hoje com 21 anos, Saymon Vinícius Sales Luna, o filho mais novo de Têca, herdou a veia artística da mãe. Formou-se em Design de Produtos na Universidade Federal do Cariri, com um trabalho de conclusão cujo título era: “Experimento utilizando a fibra de bananeira na construção de um tecido artesanal e desenvolvimento de acessórios de moda”. Uma das referências do estudo, obviamente, foi Têca.

O negócio com as mochilas, que vende virtualmente através do Facebook, começou quando ele ainda estava no ensino médio e percebeu que não havia mochilas diferentes de tecido no mercado caririense. Começou trabalhando com um amigo que sabia cortar e modelar. Com a ajuda da família, abriu uma loja, investiu em máquinas e reformas, mas uma obra na rua e o desentendimento com o sócio o levaram a desistir do negócio. “Fiquei meio traumatizado com aquilo”, recorda.

Um dia uma professora o chamou para fazer uma coleção de mochilas para um estúdio em Uberlândia.  Juntos, criaram várias peças com reuso de jeans: uma bolsa transversal e cases para notebook, Ipad e celular. Foi quando Saymon se reanimou e decidiu criar a Ponto 21, marca que produz as mais criativas mochilas do Cariri, feitas com tecido e, em menor escala, couro. As padronagens raramente se repetem, portanto as peças são exclusivas. Uma mochila grande, onde cabe um notebook de14”, custa entre R$ 95 e R$ 280 – sendo a mais barata de tecido e a mais cara de couro. A pequena sai por R$ 65. Além das mochilas, Saymon produz bolsas, estojos e carteiras. As peças  são vendidas exclusivamente pela internet. “Meu objetivo não é ser industrial, nem fazer em grande escala”.

Na Universidade, Saymon Luna foi bolsista do projeto Mulheres da Palha, dando oficinas às mulheres do Horto e ajudando na finalização dos produtos. “Era parte do trabalho de extensão. Com isso, eu realmente me apaixonei pelo design de artesanato, que era algo que já fazia parte das minhas referências desde pequeno”. Trata-se de uma relação bastante delicada, já que o designer não pode descaracterizar a produção nem interferir no processo criativo dos artesãos, mas deve encontrar formas de tornar o produto mais competitivo no mercado. “O importante é não impor nada à comunidade, é chegar a um consenso, como foi feito nos três anos do projeto Mulheres de Palha, cujo objetivo era tornar essas mulheres independentes economicamente”, considera Saymon.

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Saymon e suas mochilas: “Nunca repeti uma”

 

EXPERIÊNCIAS INOVADORAS

Atualmente ele está se preparando para o mestrado de Design e Cultura na Universidade Federal de Pernambuco. Até lá, pretende continuar com o Ponto 21, lançando coleções de bolsas e mochilas semestralmente. Mantém uma fanpage no Facebook e vai investir num site de e-commerce, para dar vazão à produção quando estiver fora. A parceria com a mãe se estende a projetos como o “Da Flor ao Fio”, promovido pela Ceart, no qual trabalharam com o fio de algodão e a fibra de bananeira, desenvolvendo uma coleção composta por pufe-baú, esteira, luminária, nicho de parede, revisteiro e almofada.

Saymon explica que é possível desfiar a fibra da bananeira com uma escova de metal, obtendo filamentos, como acontece com o sisal, por exemplo (sendo mais macios). Com isso, pode-se usar o tear manual para fazer um tecido artesanal da bananeira. Em seu trabalho de graduação, ele fez a experiência de juntar o fio do algodão no urdume com a fibra de bananeira na trama. Num primeiro momento, o tecido produzido ficou áspero, mas numa segunda etapa de testes, com a introdução de mais fios de algodão na trama, obteve-se a maciez esperada. Saymon fez também um sapato usando a fibra de bananeira, e pretende incrementar essa produção até o final do ano.

Assim como Têca, ele participa do Cariri Criativo, que reúne uma rede de empreendedores das mais variadas áreas e promove uma feira na segunda semana de cada mês (quinta, sexta e sábado, das 18h às 22h), na RFFSA do Crato. Além de encontrar os produtos mais criativos da região, o público participa de oficinas e têm acesso a atrações musicais gratuitas. O projeto é da Universidade Federal do Cariri, com parceria do Sesc, BNB e Secretaria da Cultura do Município.

 

TERAPIA PROFISSIONAL

Maria Celeste Franco da Rocha é artesã e professora. Trabalha principalmente com crochê, mas sabe fazer de tudo, incluindo bordado e pintura: guardanapos, prendedores de guardanapos, sousplat de crochê, enxoval de bebê… É um dom que traz desde menina, quando foi treinando e aprendendo por conta própria. A primeira peça foi um meião de crochê, que estava na moda na época. No colégio interno, ensinava as outras meninas a fazerem os trabalhos manuais mais caprichados.

Quando conversou com a Cariri, em um dia de setembro, estava feliz. O Estatuto do Artesão, que regulariza a profissão, fora assinado naquela semana. “Passou pelo Congresso, basta a presidente sancionar”, sorri Celeste, que sempre batalhou nessa seara. Ela é consultora, dá oficinas, faz palestras, participa de feiras e rodadas de negócios, ajuda a desenvolver produtos e a “pensar” o artesanato. Junto com Lúcia Novaes, é sócia do Birô Carioca, uma empresa de prestação de serviços na área. E, independente disso, tem a Le Ramm Decor, sua própria marca de produtos artesanais. O carro-chefe é o guardanapo de linho com bainha feita à mão. “Quem conhece, valoriza”.

Entre o “gostar” e a necessidade, Celeste foi aprimorando suas técnicas e saberes. Como consultora do Sebrae, cria produtos em cima de cada tipologia e viaja para dezenas de municípios, dando cursos nos escritórios de Tianguá (que abrange o Sertão Central), Crateús, Limoeiro, Cariri… Nas aulas de crochê ensina, por exemplo, a aprimorar a qualidade do produto e a trabalhar com o acabamento mais fino. Nas de bordado, mostra como fazer: dos pontos básicos aos mais complicados. Elogiando os esforços da Cert e do Sebrae, ela afirma que com os projetos desenvolvidos o artesanato do Ceará deu um grande salto de qualidade e de padrões.

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Celeste Franco: Vocação e talento que vem da infância

NÃO SOMOS COITADINHOS

“Sempre digo, onde dou palestras que o artesão não é um coitadinho. Eu sobrevivo há anos do artesanato. Não é uma terapia ocupacional, é uma terapia profissional”. Nas consultorias, Celeste faz questão de esclarecer que não está ali para ensinar, mas para aprender com a comunidade. Teve uma experiência interessante em Iguatu, trabalhando junto com um designer na capacitação de duas associações de artesãos. “O designer tem a informação sobre tendências, cores e formas. Já os artesãos têm o conhecimento prático de como fazer. Quando um e outro se juntam, todos saem ganhando”.

Saber trabalhar as vendas, ter uma boa comunicação com os clientes, identificar o que as pessoas gostam e investir em gestão são outros pontos que, na opinião de Celeste, devem ser aprimorados pelo empreendedor criativo. Quando conversamos, ela estava de malas prontas para participar do Encontro Internacional de Negócios, no Rio Grande do Norte, e aproveitaria para levar 350 guardanapos para um casamento. “Já me senti humilhada ao preencher um cadastro e me pedirem para substituir a profissão, porque artesanato, no entender deles, seria apenas uma ocupação. Hoje o artesão pode se aposentar como um profissional. Ele tem uma profissão”.

Alimentando o sonho de implantar a disciplina de artesanato nas escolas, Celeste enfatiza que o Ceará é muito conhecido pela qualidade dos seus produtos, sendo o Cariri a região com maior número de tipologias. Ao lembrar que, apesar da crise do país, o artesanato está sobrevivendo, ela se revela extremamente otimista quanto ao futuro da economia criativa caririense. “Crescimento do conhecimento, melhoria do produto, rodadas de negócios, técnicas comerciais, relações humanas e associativismo: tudo isso, que é tão importante, está sendo trabalhado por aqui. Nosso artesanato tem identidade própria. Muito artesão, hoje, tem condições de sentar com um lojista internacional e negociar”.

 

SERVIÇO:

Têca: Rua Cel. Ludgero, 79. Bairro Pinto Madeira. Crato. Tels: (88) 3523.8481 e (88) 98821. 7040. www.facebook.com/tecacomedoria

 

Saymon Luna: www.facebook.com/Ponto21

 

Celeste Franco: (88) 99972.3008/ 98803.1967/ 99245.3003. celesteartes@ig.com.br

 

Cláudia Albuquerque