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A casa é sua

Longe dos cartões-postais e destinos óbvios, há um novo roteiro se desenhando no Cariri, voltado para turistas que querem imergir na nossa cultura e conhecer de perto o nosso povo. Saiba quem está colocando a região na rota do turismo de base comunitária.

Fotos: Samuel Macedo

Azedos, distrito de Santana do Cariri, não está no Google Maps, Dona Luísa Geralda não tem Facebook e a casinha dela, no sopé da Chapada do Araripe, não está disponível para aluguel no Airbnb. Para conhecer o lugar é preciso encarar o sobe e desce na estrada de areia, abrir uma cancela de madeira, sujar o tênis na terra molhada e escalar a pé uma ladeira íngreme e lotada de árvores dos mais variados frutos.

Escorada no sopé da Chapada, a casa virou atrativo para turistas sem que Dona Luísa precisasse procurar por eles, muito menos entender o conceito de “turismo comunitário de base”. Júnior dos Santos é quem se encarrega de ligar antes para ela, avisando que tem turista chegando, e de levá-los até lá. Ele representa a Agência Turismo Comunitário, que nasceu em 2012 no terreiro da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, cidade onde ficam hospedados os turistas que chegam ao Cariri através de Júnior.

“Nós criamos uma rede sustentável nas cidades, uma espécie de ciclo, em que o guia é da comunidade, a pessoa que hospeda também faz artesanato e é quem comercializa o próprio produto. E há também o contato, a experiência que o turista pode ter”, Júnior explica. Quando chegou com os visitantes para o primeiro almoço preparado pelos anfitriões, ele se deparou com uma mesa chique, na medida do possível. Tentando prever o que “o povo de fora” iria gostar de comer, ofereceram macarronada e Coca-Cola. Foi aí que o guia resolveu intervir: vai para o prato e o copo só o que a terra dá. Ao invés disso, agora o cardápio oferece suco de cajá e baião de dois com pequi, cozido em fogão à lenha. O agricultor que antes plantava para vender em feiras hoje ganha dinheiro sem sair de casa. Ele vende a alface já no prato do visitante, que é quem vai à roça colher o que quer comer.

 

A vista dos Azedos: a roça onde os turistas escolhem o que vão comer

A vista da casa de dona Luísa Geralda: ao fundo, o “mar” de Buriti, planta natural da Chapada

 

Com saídas a partir de Nova Olinda, onde dez casas (ou Pousadas Comunitárias) estão cadastradas na Agência Turismo Comunitário para receber visitantes, o roteiro inclui em sua rota outras cidades da região. Em Assaré, o grupo visita a casa de Dona Francisca do Pote — que já traz no nome o seu ofício de artesã do barro — , depois passa pela varanda do escritor Geraldo Gonçalves, poeta e primo de Patativa do Assaré, e encerra o dia na casa de Chico Paes, grande tocador de oito baixos que, sempre à tardinha, dá aulas de sanfona ao neto. Em Potengi, as paradas também são muitas: Maria Piauí é uma rezadeira forte, que encanta as visitas, e Françoli de Oliveira, artesão, tem um curioso museu de aviões. Em Santana do Cariri, já conhecida pelos fósseis de dinossauros, também é feita uma parada no Casarão das Rendeiras, um prédio histórico onde as artesãs de renda de bilro passam o dia trabalhando no tear.

O Turismo Rural Comunitário (TRC) surgiu nos anos de 1980 como uma alternativa de preservação de patrimônios naturais e culturais que vinham sendo destruídos para dar lugar a grandes hotéis e resorts. “O TRC dirige-se a pequenos grupos de viajantes em busca de experiências pessoais originais e enriquecedoras, combinando vivências culturais autênticas, desfrutando de cenários naturais e de uma remuneração adequada do trabalho comunitário”, diz Carlos Maldonado, fundador da RedTurs (Rede de Turismo Comunitário da América Latina). O turismo, segundo analisa Maldonado, pode contribuir para a geração de renda das casas, assim como de empregos na área rural, movimentando a agricultura doméstica e o econegócio.

Graças a isso, surgem micro e pequenas empresas, como a Agência Turismo Comunitário, de Júnior, e a Birder’s Guide, de Jefferson Bob, que diversificam a oferta turística para visitantes de todo o Brasil – e do mundo –, contribuindo, dessa forma, para o desenvolvimento econômico das cidades do Cariri. Jefferson Bob é um biólogo de 33 anos, natural de Potengi, município onde foi secretário de Cultura até 2014, quando resolveu se dedicar totalmente ao hobby de andar pelo mato fazendo fotos de pássaros. Munido de equipamento profissional, com superlentes capazes de captar as aves à distância, ele percorreu a Chapada do Araripe e formou um acervo fotográfico de 189 espécies que ele mesmo catalogou em sua cidade. A sua família o perguntava: “Jefferson, isso vai dar em alguma coisa?”. Deu. Toda a casa passou a se sustentar do turismo de observação de aves depois que o biólogo resolveu se tornar um guia para outros curiosos como ele.

O biólogo passeia pelas matas de Potengi e Araripe — locais onde é possível encontrar o maior número de pássaros no Cariri —, e sempre leva os turistas para se hospedarem em sua cidade, fugindo do lugar-comum que é levar o visitante para as cidades maiores, como Juazeiro do Norte e Crato. Quem é de reza, Bob leva para o Horto. Quem é de artes, vê o reisado de máscaras de Potengi. A diversidade de roteiros pelo interior do Cariri prova que os lugares mais afastados também têm atrativos e merecem ser explorados. “Potengi não é uma cidade que a gente pode considerar turística, porque ela não tem características nem infraestrutura para isso. Mas, com a chegada de turistas, cria-se uma certa expectativa nos moradores, e isso abre horizontes para as pessoas”, pondera o guia, que pretende transformar o sítio da família em uma pousada para os visitantes que chegam ao Cariri.

UMA PLANTAÇÃO DE UVA AOS PÉS DA CHAPADA

Na Palmeirinha, em Santana do Cariri, está uma das três plantações de uva da região —  há mais uma em Barbalha e outra em Brejo Santo —,  e que, claro, faz parte do roteiro de paradas dos turistas que chegam à região na companhia de Júnior. Hélio Gonçalves e suas irmãs, Neuma e Maria Socorro, resolveram se arriscar no plantio de três tipos de uvas. Porém, anos se passaram e nenhuma safra vingou. Socorro, que é professora e cuidava de outras áreas do sítio, resolveu aprender todas as técnicas do cultivo, e só então a plantação deu certo. Em uma das áreas mais férteis de todo o Cariri, onde há água durante todo o ano, a terra dos irmãos Gonçalves hoje dá 620 pés de uva, abastecendo feiras e mercados da região. “Somos contra uso de veneno e agrotóxicos em nossas plantações. Até porque a maior praga que a gente tem aqui são os passarim, no mês de julho. Mas tem que dividir com eles, né?”, Hélio ri.

Hélio Gonçalves e suas irmãs, Neuma e Maria Socorro

 

CONTATO

Jefferson Bob – (88) 9 9294 2146

araripebirding@gmail.com

Foto: Aline Rodrigues

 

Júnior dos Santos – (88) 9 9729 4103

agenciaturismocomunitario@gmail.com

 

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  • Ddogão Itaim

    Boa matéria, abordagem muito rica do tema, apesar da simplicidade do local do povo, os valores são notados do por quem já andou por estas terras, sou filho do povo, vivo no sudeste, mas não fico um ano sem visitar a região do Cariri