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Colunas, Crônicas 0

A bondade é graça, inútil e sem causa

“A bondade é graça […] é inútil e sem causa.”
Gyorgy Lukács

No mês de setembro, seu futuro fora traçado. Nesse período se inicia a colheita da cana de açúcar na cidade de Barbalha. Caminhões incontáveis transitam na avenida Leão Sampaio em direção ao Crato. As laterais desses veículos possuem grades, que somente impedem que a cana caia durante o percurso.

Havia uma rodinha de meninos inebriados com o morgar das tardes. Um amigo de Eduardo subia a José Lopes de Oliveira como quem vende jornal em Londres, logo nas primeiras horas do dia. Ao invés de gritar “extra!”, dizia em bom som: os caminhões de cana, corre, os caminhões de cana estão passando! Voluntariamente todos foram se levantando e seguindo o caminho que levava ao final da rua.

Quando chegaram a Avenida Leão Sampaio, não se via nada além de carros passando velozes. Sentados ao meio fio da avenida, seis garotos mexiam nos bagaços que os caminhões deixavam. Se ouviu ao longe um som meio oco que deslocava-se devagar. Eduardo não sabia bem ao certo o que iria acontecer. Um amigo se levantou rapidamente, esticava o pescoço como se fosse possível alongar a visão.

Pouco a pouco um caminhão vermelho e velho iria se formando às vistas daqueles meninos. O veículo estava carregado de cana de açúcar. Quanto mais o carregamento se aproximava os meninos iam erguendo seus corpos. Quando o veículo os alcançou, estavam todos eretos ao meio fio. Ao ponto que o caminhão passava por eles, esticavam as duas mãos, agarravam quantas talas conseguissem e puxavam para a calçada.

Eduardo estava extasiado com o seu primeiro roubo. Passado a expropriação, desceram a Jose Lopes de Oliveira e retornaram a calçada cheia de sombra de onde partiram. Gozaram os frutos de seu roubo. Sua bocas e mãos estavam lambuzadas do licor doce. Deixaram muitos bagulhos no chão, que depois jogaram no terreno baldio que havia em frente à calçada onde estavam. Eduardo estava satisfeito, feliz e lambuzado.

Despediu-se dos amigos para ir para casa lavar-se. Havia esquecido do compromisso que cumpria religiosamente às 16:30. Lavou-se vagarosamente na pia do quintal. Adentrando a cozinha vê que o relógio grita e avisa. A mãe já lhe esperava na máquina de costura da sala. Sobre a mesa da máquina havia um punhado de moedas. Pegou-as automaticamente, jogando-as nos bolsos e desceu rua abaixo.

Embora a rua fosse linear, Eduardo carregava a impressão de que cada quarteirão era um mundo, com suas regras próprias, seus reis e pessoas. Andava quase pisando em ovos. Tivera de andar seis quarteirões inteiros. No seu shortinho, tratava de distribuir as moedas para que fizessem o menor barulho. Incomodava-lhe alguém saber o que trazia.

Chegou então ao seu destino: a padaria. Depois das 16:30 os pães são sempre quentinhos. Retirou as moedas do bolso, montou-as organizadamente sobre o balcão de vidro. A atendente lhe sorriu e em poucos segundo lhe entregara uma sacola contendo dez pães de coco. O calor era perceptível. Eduardo repetiu o processo subindo a José Lopes de Oliveira.

Percorrera seis quarteirões, tudo outra vez. Na sua cabeça não passava nada, exceto a vontade de chegar em casa. Por algum motivo estava mais ansioso que nunca. Enfim chegara. A porta aberta não lhe infligira resistência. Em um passo já se apossava da mesa da cozinha, organizando todos os elementos necessários para o ritual.

O café já estava a postos. Estendeu o pano de prato. Pegou a faca e a colher. Abriu a sacola de pães para enfim sentar-se. O relógio despontava 17:00 horas. Pegou o primeiro pão, com a faca abriu-o, recheou de margarina com a colher e com duas mordidas o pão havia sumido, em seguida o café lhe auxiliava no processo. Um a um os dez pães foram comidos. Eduardo estava satisfeito.

O relógio se movimentara um quarto quando o último pedaço de pão e último gole de café lhe entraram nos estomago. Se preparava para voltar às ruas, junto à corja de criminosos. Ao chegar na porta, duas crianças se aproximavam. Estavam sujas, maltrapilhas e sem comer nada o dia todo. Nesse momento Eduardo gelou. Um frio subia pela espinha fazendo itinerário pelo estomago. A garganta parecia carregar uma pedra.

Olhou para dentro da casa para procurar respostas quando as crianças, menores que ele, lhe pediram o que comer. Ele não poderia fazer outras coisa se não pedir perdão. Foi o que fez: “perdoe”. As crianças se deslocaram para a casa ao lado. E ele ficou com a cabeça do lado de fora observando o caminhar das crianças, que batiam de porta em porta. Parece que todos os seus vizinhos diziam “perdoe”. Interpretava isso pelas caras, cada vez mais cabisbaixas, daqueles frágeis seres.

Acompanhou até a sexta casa, não aguentou. As crianças iam subindo a José Lopes de Oliveira. Atordoado ele foi em sentido contrário. Eduardo não pensava em nada, a não ser na sua imensa capacidade de ser egoísta, de não se preocupar com a fome e a vida dos outros. A satisfação do seu prazer lhe bastava. O que mais a vida lhe ensinara? “Não precisava comer dez pães, não havia tanta fome assim” – falava uma voz na sua cabeça. Queria cala-la. “Três pães bastariam” – ecoava dentro dele. Eduardo não queria mais viver, se reconhecia duplamente criminoso. Não bastava ser ladrão, também era assassino. Ah, meu Deus, um assassino. Estava agora insatisfeito.

 Eduardo, pobre coitado, não aguentava mais viver. A culpa pairava sobre a sua cabeça. Poderia ter sido bom e criminoso, mas não conseguiu salvar duas vidas sequer. De um momento para o outro o peso do seu nome jogou-lhe ao chão. Eduardo passou da tranquilidade criminosa para fazer parte daquilo que é do árduo. Sentiu-se menos que o cocô do cavalo do bandido. Andou desnorteado e deparou-se com a Avenida Leão Sampaio. Levou as mãos aos olhos e atravessou a avenida. Um carro pegou-lhe de cheio, fez Eduardo voar. O menino caiu em cima de um caminhão carregado de cana. Tudo começou outra vez, mas nunca mais se ouviu falar em Eduardo.

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