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Economia e Negócios, Revista 0

A ascensão do alumínio

Segundo maior em geração de emprego e renda no Cariri, o emergente mercado de alumínio e metalmecânico se destaca como o primeiro polo do gênero no Nordeste e 4º no Brasil.

Copos, pratos, panelas, talheres e tudo mais de alumínio. A relação do caririense com este metal é tão antiga quanto a própria história de Juazeiro do Norte. Como reza a lenda de quase tudo na região, teria sido Padre Cícero Romão Batista o principal incentivador da fabricação e comercialização de candeeiros de alumínio. Ao criar a romaria de Nossa Senhora das Candeias, ele reaqueceu o enfraquecido mercado dos ferreiros, popularizando o uso dos candeeiros na procissão de luz que desce as ruas da cidade.

Quase um século depois, uma das cenas mais recorrentes das romarias reflete o poder da tradição: centenas de ambulantes e comerciantes expondo seus produtos em amontoados de lojas, barracões, banquinhas ou mesmo em tapetes estirados nas calçadas do Centro. Um mar prateado de metal reluz.

Tamanha é sua importância para a economia da região que o mercado do alumínio e metal superou o setor de joias e folheados em faturamento e número de empregos gerados, firmando-se como o maior polo produtor de panelas do Nordeste e o 4º maior polo industrial de alumínio do país. Na região, fica atrás apenas da produção de calçados. São aproximadamente 200 empresas formais e informais, que geram 4.000 empregos diretos e mais de 10.000 indiretos, com faturamento anual de R$ 300 milhões, segundo estima o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas Mecânicas e de Materiais Elétricos no Estado do Ceará (SIMEC).

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Alumínio, segundo maior gerador de emprego e renda do Cariri (Fotos: Samuel Macedo)

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Carro-chefe de vendas, as panelas metálicas representam R$ 144 milhões do faturamento, com Juazeiro do Norte na dianteira, abocanhando R$ 96 milhões do mercado, de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-Ce), que vem acompanhando de perto o setor industrial metalmecânico no Cariri junto à Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC).

Não são, porém, números que reflitam as vendas diretas em romarias, onde a esmagadora maioria (90%) das comercializações ficam na informalidade das caçambas de caminhões.

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AQUILO QUE RELUZ

Antes revendedor de utensílios domésticos, hoje o juazeirense Ronemberg Matos é  um exemplo de empreendedor no mercado metalmecânico. Em apenas 12 anos, conseguiu colocar sua fábrica entre as maiores do setor no Cariri. Com 130 funcionários produzindo 40 mil peças de utensílios domésticos em metal por mês, a indústria Luminex se projeta para fora da região e distribui para todo o Nordeste, cobrindo também parte do Norte e Sudeste. Em média, 15 toneladas de alumínio beneficiado são utilizadas por mês para a produção de panelas, frigideiras, caldeirões e demais objetos, que são distribuídos a partir de duas estratégias: o modo tradicional é popular no Nordeste e utiliza revendedores de estrada – o famoso porta-em-porta, enquanto a outra modalidade  é o contato direto com lojas de departamento.

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Jovens empreendedores: Ítalo Matos, gerente comercial da Luminex, indústria de metalmecânico de Juazeiro do Norte.

W.

A Luminex tenta escapar da crise financeira que vem assombrando o país desde o início de 2015. “Tínhamos alta capacidade produtiva e capacidade instalada, então, após consultorias para otimização de procedimentos e redução de custos com maquinário, apostamos na abertura de outros mercados de venda”, diz Ítalo Matos, gerente comercial. A empresa agora amplia seu mercado com fornecedores, distribuidores, lojistas e atacadistas que compram e revendem seus produtos, superando o obstáculo interno de não conseguir mercado significativo dentro de Juazeiro do Norte. “A comercialização de alumínio nas romarias é absurda! É preciso vir comerciantes de outros estados para suprir a necessidade, mas o que muda? Muda o foco da mercadoria. Nas romarias, o produto é de baixo custo, barato, com curta vida útil, pouco acabamento. Não é o produto que nós fazemos”, Ítalo explica.

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Mercado informal representam 90% da economia romeira e pequenas fábricas locais representam 50% do polo regional.

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O MERCADO EM TEMPOS DE RETRAÇÃO

Com 30% de reajuste no valor da matéria-prima – em que se soma beneficiamento, transporte e demais custos operacionais (que por sua vez sofrem com aumentos na energia elétrica, água e gasolina) –, encontrar uma forma de absorver o impacto do aumento triplo nos custos foi um desafio encarado pelo setor do alumínio no Brasil.

Sem poder repassar a totalidade dos custos ao consumidor final, houve retração de crescimento e faturamento. Mas, nacionalmente, o recuo de 8,5% no volume da demanda de produtos de alumínio, comparando dados de 2014 (1.429,7 mil toneladas) e 2015 (1.308,5 mil toneladas), não assustou a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), que encara os números como esperados diante da queda nos setores da construção civil e dos transportes. Ainda assim, o alumínio atingiu um desempenho superior ao de seus principais concorrentes, como o aço e o plástico, conforme dados da Associação.

Dados da SIMEC apontam 400 toneladas de produtos comercializados formalmente na região. Para o presidente regional do Sindicato, Adelaído de Alcântara Pontes, mesmo em tempos críticos, o setor ainda representa boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) de Juazeiro do Norte, onde a maioria das indústrias estão instaladas.

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Em 2016, o Sebrae – CE lançou projeto que visa fortalecer o setor.

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PEQUENAS EMPRESAS FAZENDO GRANDES NEGÓCIOS

Micro e pequenas empresas representam 50% do crescente setor de alumínio caririense e, para apoiar seu desenvolvimento, o Sebrae-Ce lançou em 2016, através da regional do Cariri, o projeto industrial do setor metalmecânico de capacitações e consultorias. Com ele, empresas de pequeno porte, microempresas e empreendedores individuais recebem atendimento em gestão, educação e tecnologia, com incentivo à cultura da inovação e da cooperação.

O Sebrae visa adequar as empresas dentro das normas da INMETRO e garantir certificações de qualidade ISO a partir de quatro estratégias de capacitações e consultorias: otimização da eficiência em gestão empresarial, gestão produtiva e inovação dos produtos, consolidação de mercado e incorporação de práticas sustentáveis.

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“Apesar de grande, não há competição com o mercado informal. Nosso foco é em quem prefere um produto mais trabalho, robusto e com boa vida útil”, Ítalo argumenta.

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